Por conta própria
Combine um texto longo com um curto e anote o atrito entre escala cósmica e obsessão terrestre. O espaço serve melhor quando a vergonha humana continua visível.
Guia capenga de leitura
Perguntas para pensar ou conversar sobre astronauta em site adulto, apocalipse de CLT, banana marciana, avó demoníaca e bolovo como projeto civilizatório.
O livro usa o espaço menos como templo do sublime e mais como extensão cósmica das nossas neuroses, improvisos e humilhações. Tem asteroide, colônia em Marte, primeiro contato e exploração espacial, mas quase tudo volta para solidão, família, trabalho, internet, escatologia e a dificuldade humana de manter dignidade enquanto o mundo arde ou a barriga aperta.
Autor Douglas Domingues
edições fuinha · 2025 · 11 textos · ISBN impresso 978-65-983188-1-9 · ISBN e-book 978-65-983188-0-2
Combine um texto longo com um curto e anote o atrito entre escala cósmica e obsessão terrestre. O espaço serve melhor quando a vergonha humana continua visível.
Cada pessoa escolhe uma missão, catástrofe ou pequena humilhação espacial. Comparem onde termina a ficção científica e começa a crônica brasileira em gravidade reduzida.
Se der branco: Se der branco, separe a parte realmente espacial do texto da parte miseravelmente humana. A graça costuma nascer do atrito. Quando tudo ficar solene demais, volte ao concreto: cocô em órbita, bolovo em Marte e site adulto como infraestrutura planetária.
Comece pelos contos mais extensos e deixe os textos curtos para uma segunda rodada. É a rota para entrar mais fundo antes de variar o ritmo.
Combine um texto longo com um curto em cada rodada. Dá para alternar apocalipse, família, poesia, cocô e empreendedorismo marciano sem colapsar de uma vez.
Leia o livro inteiro em duas etapas. Leve café, água e algum estoque simbólico de papel higiênico.
01 / 11
Isolado no espaço depois de um acidente brutal, um astronauta brilhante e permanentemente subestimado perde a memória da própria missão e descobre que o único canal viável com a Terra é um site adulto. O conto junta carência social, espetáculo pornô, heroísmo e apocalipse para transformar o patinho feio da tripulação num salvador improvável e indecentemente carismático.
Palavras suspeitas: heroísmo / solidão / internet / apocalipse / reconhecimento
Alguma coisa que pareceu importante na hora
02 / 11
Em anotações curtas e mal-humoradas, um trabalhador acompanha a aproximação do asteroide enquanto comenta CLT, bilionários, Sonia Abrão, papel higiênico e o desespero geopolítico geral. O apocalipse vira crônica de classe, consumo de mídia e desejo muito legítimo de ver rico se ferrando antes da espécie inteira.
Palavras suspeitas: apocalipse / mídia / classe / bilionários / cotidiano
Alguma coisa que pareceu importante na hora
03 / 11
Num módulo marciano, um tripulante entra em crise porque precisa fazer uma vitamina de banana para Lucas, amigo imaginário que o ajudou a atravessar a viagem e agora precisa ser simbolicamente morto. O conto transforma culpa, tédio espacial, receita de YouTube e sanidade operacional num ritual de despedida estranhamente terno.
Palavras suspeitas: imaginação / solidão / culpa / amizade / Marte
Alguma coisa que pareceu importante na hora
04 / 11
Depois de fugir da família e ir trabalhar no espaço para impedir uma fenda metafísica causada pelos natais domésticos, o narrador é coagido a voltar à Terra no leito de morte da avó Alberta, matriarca do caos. A solução encontrada é simples, extrema e, no contexto, até razoável: morrer antes de pousar e comemorar a vitória do além.
Palavras suspeitas: família / natal / fuga / metafísica / morte
Alguma coisa que pareceu importante na hora
05 / 11
Em órbita, um astronauta enfrenta o mais negligenciado dos desafios espaciais: alinhar corretamente corpo e tubo para fazer cocô sem condenar a tripulação a um desastre íntimo e inesquecível. É um microconto sobre precisão, corpo e a verdadeira gravidade das pequenas emergências.
Palavras suspeitas: escatologia / corpo / precisão / cotidiano / espaço
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06 / 11
Em formato de roteiro de documentário, o texto reconstrói a história de uma sonda russa enviada para um planeta habitado e o grande mistério que ela deixou: por que ninguém respondeu ao primeiro contato. A explicação, quando vem, é de uma simplicidade impecável e humilha várias fantasias humanas de grandeza científica.
Palavras suspeitas: primeiro contato / comunicação / ciência / linguagem / documento
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07 / 11
Num futuro em que a velha Terra já virou objeto de arqueoturismo, um visitante resenha uma sauna como se tivesse encontrado uma câmara ancestral de tortura e defumação. O microtexto tira humor do estranhamento civilizatório e da facilidade com que nossos hábitos ficam bárbaros quando observados de muito longe.
Palavras suspeitas: futuro / arqueologia / corpo / estranhamento / turismo
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08 / 11
Em segunda pessoa, um sobrevivente da violência humana transforma dor em preparo metódico para retaliar uma espécie inteira, repetindo em nossos corpos os mesmos exames anais que viraram lenda. O conto inverte a paranoia da abdução alienígena e faz da vingança uma pesquisa de campo bastante específica.
Palavras suspeitas: vingança / abdução / inversão de perspectiva / sadismo / trauma
Alguma coisa que pareceu importante na hora
09 / 11
Diante de um comitê avaliativo, um empreendedor argumenta que a colonização de Marte só estará minimamente madura quando houver bolovo, botequim e fast-food brasileiro no planeta vermelho. O texto leva saudade cultural, discurso de startup e brasilidade gastronômica ao mesmo patamar de projeto civilizatório.
Palavras suspeitas: comida / brasilidade / empreendedorismo / colonização / saudade
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10 / 11
Emoldurado por uma nota curatorial meio esnobe, o poema encontrado num módulo lunar abandonado registra o encanto apavorado de alguém preso diante da Lua. A peça é tratada como artefato cultural menor, o que só aumenta a graça e a ternura da sua mistura de assombro, pânico e jazigo bonito.
Palavras suspeitas: lua / poesia / arquivo / solidão / curadoria
Alguma coisa que pareceu importante na hora
11 / 11
Responsável pela logística da primeira missão humana a Marte, um especialista em prever necessidades entra em pânico num supermercado porque esqueceu uma coisinha qualquer. Depois de projetar esse vazio em casamento, carreira e missão histórica, ele descobre no banheiro que o item ausente era papel higiênico, o que infelizmente faz todo sentido.
Palavras suspeitas: ansiedade / logística / casamento / memória / trabalho
Alguma coisa que pareceu importante na hora