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Capa de Tentei salvar o planeta de um asteróide em um site adulto e outros contos semi-espaciais

Guia capenga para clubes de leitura

Tentei salvar o planeta de um asteróide em um site adulto e outros contos semi-espaciais

Perguntas para conversar sobre astronauta em site adulto, apocalipse de CLT, banana marciana, avó demoníaca e bolovo como projeto civilizatório.

A ideia aqui é dar forma de conversa a um livro que usa o espaço menos como templo do sublime e mais como extensão cósmica das nossas neuroses, improvisos e humilhações. Tem asteroide, colônia em Marte, primeiro contato e exploração espacial, mas quase tudo volta para solidão, família, trabalho, internet, escatologia e a dificuldade muito humana de manter alguma dignidade enquanto o mundo arde ou a barriga aperta.

Autor Douglas Domingues
Editora edições fuinha
Ano 2024
Estrutura 11 textos

Como usar

  • Misture um conto longo com um texto curto. O contraste ajuda a perceber como o livro muda de escala sem mudar de cabeça.
  • Se a conversa empacar, identifique a pequena humilhação ou a obsessão concreta do texto. Quase sempre ela é a chave do resto.
  • Não tente discutir tecnologia espacial como se este fosse um manual da NASA. O livro claramente tinha outras prioridades, e fez bem.

Dica de mediação: Se o grupo travar, pergunte qual é a parte realmente espacial do texto e qual é a parte miseravelmente humana. Quase sempre a graça nasce do atrito entre as duas. E, quando a conversa ficar solene demais, volte para o concreto: cocô em órbita, bolovo em Marte, site adulto como infraestrutura planetária. O livro agradece.

Aquecimento do encontro

  1. Qual texto te ensinou mais rápido o pacto deste livro: que o espaço pode até ser grandioso, mas a vergonha humana chega antes?
  2. Onde o livro te parece mais ficção científica e onde ele parece mais crônica brasileira deslocada para o cosmos?
  3. O humor aqui funciona mais como fuga da catástrofe ou como maneira de olhar para ela sem babar no sublime?
  4. A variedade de formas, do diário ao falso documentário e ao poema arquivado, amplia o livro ou só confirma a mesma cabeça operando em faixas diferentes?

Modos de encontro

Escolha um formato e bagunce a conversa com método.

Missão longa

Faça um encontro só com os contos mais extensos e deixe os textos curtos para um segundo round. Funciona bem se o grupo gosta de entrar mais fundo antes de variar o ritmo.

Órbita baixa

Combine um texto longo com um curto em cada rodada. Dá para alternar apocalipse, família, poesia, cocô e empreendedorismo marciano sem colapsar de uma vez.

Apocalipse completo

Leia o livro inteiro em dois encontros. Leve café, água e algum estoque simbólico de papel higiênico.

Texto a texto

11 textos

O patinho feio

Douglas Domingues conto p. 11-28

heroísmo solidão internet apocalipse reconhecimento

Isolado no espaço depois de um acidente brutal, um astronauta brilhante e permanentemente subestimado perde a memória da própria missão e descobre que o único canal viável com a Terra é um site adulto. O conto junta carência social, espetáculo pornô, heroísmo e apocalipse para transformar o patinho feio da tripulação num salvador improvável e indecentemente carismático.

Quebra-gelo

  • Em que momento você aceitou que a salvação do planeta passaria mesmo por um site adulto?
  • O narrador te parece mais coitado, mais irritante ou mais carismático do que seria prudente admitir?
  • Qual detalhe do caos te pegou mais: o ketchup na seleção, a hashtag #SAVEUS ou os monitores pornôs virando central de missão?
  • O grito final de contagem regressiva fechou para você como heroísmo, revanche social ou grande performance terminal?

Cabeção

  • Como o conto liga necessidade de público, carência afetiva e desejo de reconhecimento à própria ideia de heroísmo?
  • A pornografia aqui funciona só como piada excelente ou também como comentário sobre atenção, infraestrutura e comunidade improvisada?
  • Em que sentido o narrador deixa de ser o patinho feio: quando prova competência, quando vira espetáculo ou quando finalmente é desejado por uma multidão?
  • Por que o conto consegue ser ao mesmo tempo escandaloso, melancólico e sinceramente épico?

Diário do fim do mundo

Douglas Domingues conto p. 29-36

apocalipse mídia classe bilionários cotidiano

Em anotações curtas e mal-humoradas, um trabalhador acompanha a aproximação do asteroide enquanto comenta CLT, bilionários, Sonia Abrão, papel higiênico e o desespero geopolítico geral. O apocalipse vira crônica de classe, consumo de mídia e desejo muito legítimo de ver rico se ferrando antes da espécie inteira.

Quebra-gelo

  • Qual entrada do diário te pareceu mais precisa como retrato do fim do mundo brasileiro?
  • O narrador te convenceu mais pela leitura geopolítica ou pelo uso muito livre de Sonia Abrão e Yudi Tamashiro como fontes?
  • Que detalhe apocalíptico te divertiu mais: o estoque de papel higiênico, a rave de rico ou o hotel espacial do Elon Musk?
  • O final te soou mais alívio, ameaça ou constatação de que o pior ainda consegue piorar?

Cabeção

  • O que o formato de diário faz com o apocalipse: aproxima, banaliza ou torna tudo mais crível justamente por ser tão picado?
  • Como o texto mistura comentário de mídia, luta de classes e catástrofe global sem perder a voz de alguém comum?
  • O riso aqui funciona como anestesia ou como modo de enxergar o absurdo político com mais clareza?
  • Por que a ideia de fim do mundo perde solenidade e ganha força quando passa por boletos, turnos de shopping e papel higiênico?

Vitamina de banana

Douglas Domingues conto p. 37-48

imaginação solidão culpa amizade Marte

Num módulo marciano, um tripulante entra em crise porque precisa fazer uma vitamina de banana para Lucas, amigo imaginário que o ajudou a atravessar a viagem e agora precisa ser simbolicamente morto. O conto transforma culpa, tédio espacial, receita de YouTube e sanidade operacional num ritual de despedida estranhamente terno.

Quebra-gelo

  • Em que momento a busca pela banana deixou de ser só piada e virou crise emocional séria?
  • Lucas te parece mais amigo, sintoma ou solução precária que funcionou até funcionar demais?
  • Qual detalhe do conto te ganhou mais: a playlist ruim, o ódio a Friends ou o veneno simbólico na vitamina?
  • O capitão te pareceu sensível, assustadoramente adaptado ou simplesmente o melhor colega possível para esse tipo de colapso?

Cabeção

  • Como o conto trata a imaginação: como perigo psíquico, como ferramenta de sobrevivência ou como ambas ao mesmo tempo?
  • O que a vitamina de banana concentra de culpa, cuidado e violência simbólica?
  • Por que a despedida do Lucas fica mais tocante justamente porque o texto se recusa a santificar esse amigo imaginário?
  • Esse conto fala mais sobre enlouquecer em Marte ou sobre a dificuldade de voltar a se afeiçoar por pessoas reais?

Vó Alberta

Douglas Domingues conto p. 49-56

família natal fuga metafísica morte

Depois de fugir da família e ir trabalhar no espaço para impedir uma fenda metafísica causada pelos natais domésticos, o narrador é coagido a voltar à Terra no leito de morte da avó Alberta, matriarca do caos. A solução encontrada é simples, extrema e, no contexto, até razoável: morrer antes de pousar e comemorar a vitória do além.

Quebra-gelo

  • A sua leitura da vó Alberta foi mais de demônia literal, velha insuportável ou as duas coisas em aliança estável?
  • Qual imagem familiar do conto te pareceu mais reconhecível, mesmo sem abrir fenda no tecido da existência?
  • Em que ponto você aceitou que a metafísica da reunião de família era para ser levada totalmente a sério?
  • O final te pareceu mais libertador, mais patético ou secretamente triunfal?

Cabeção

  • Como o conto transforma trauma familiar em cosmologia sem perder o tom de memória doméstica muito específica?
  • A fuga do narrador é exagero neurótico ou percepção aguda de que certas famílias funcionam como catástrofe recorrente?
  • Por que a morte aparece aqui menos como derrota do que como solução estratégica?
  • O texto está rindo da família, do narrador ou da nossa disposição de aceitar maldição quando ela explica bem um convívio?

Alinhamento

Douglas Domingues conto p. 57-58

escatologia corpo precisão cotidiano espaço

Em órbita, um astronauta enfrenta o mais negligenciado dos desafios espaciais: alinhar corretamente corpo e tubo para fazer cocô sem condenar a tripulação a um desastre íntimo e inesquecível. É um microconto sobre precisão, corpo e a verdadeira gravidade das pequenas emergências.

Quebra-gelo

  • Qual palavra do texto mais ajudou a vender a solenidade da operação?
  • Você ficou mais com pena do astronauta ou grato pelo conto lembrar que exploração espacial ainda passa por isso?
  • O humor aqui funciona mais pela linguagem técnica ou pelo alívio final de que, por enquanto, nada saiu errado?

Cabeção

  • Como o conto desmonta a imagem heroica do astronauta ao reduzi-la a um problema corporal muito concreto?
  • Por que tratar uma necessidade básica com seriedade quase cirúrgica produz tanto humor?
  • O que esse texto sugere sobre o quanto a fantasia do espaço depende de apagar o corpo?

A sonda sem resposta

Douglas Domingues conto p. 59-66

primeiro contato comunicação ciência linguagem documento

Em formato de roteiro de documentário, o texto reconstrói a história de uma sonda russa enviada para um planeta habitado e o grande mistério que ela deixou: por que ninguém respondeu ao primeiro contato. A explicação, quando vem, é de uma simplicidade impecável e humilha várias fantasias humanas de grandeza científica.

Quebra-gelo

  • Em que momento você começou a desconfiar que o mistério teria uma solução bem menos solene do que parecia?
  • O texto te fisgou mais pela pose de documentário sério ou pela figura do diretor russo acreditando demais em si mesmo?
  • A revelação da mímica fechou como piada perfeita ou como comentário real sobre limites de comunicação?
  • Você conseguiria explicar esse conto para alguém sem estragar a graça? Essa também é uma prova de caráter.

Cabeção

  • Como o formato pseudo-documental ajuda o conto a fabricar prestígio antes de puxar o tapete?
  • O que a história diz sobre nossas expectativas para o primeiro contato com o alienígena?
  • A solução final ridiculariza o desejo humano de conversar com o cosmos ou só expõe o quanto projetamos demais?
  • Por que o texto continua encantador mesmo depois que a piada principal se revela?

Earth 101

Douglas Domingues micro-ensaio p. 67-68

futuro arqueologia corpo estranhamento turismo

Num futuro em que a velha Terra já virou objeto de arqueoturismo, um visitante resenha uma sauna como se tivesse encontrado uma câmara ancestral de tortura e defumação. O microtexto tira humor do estranhamento civilizatório e da facilidade com que nossos hábitos ficam bárbaros quando observados de muito longe.

Quebra-gelo

  • Qual detalhe da descrição da sauna mais te fez rir pela incompreensão deliberada?
  • Você leu esse texto mais como crítica ao futuro ou como rebaixamento cômico do nosso presente?
  • A nota 4 de 10 no final melhora o texto justamente por tratar tudo como review de passeio ruim?

Cabeção

  • O que o texto revela sobre nossos costumes quando eles são lidos por alguém sem o contexto cultural certo?
  • Como o humor nasce da distância histórica sem precisar de grande enredo?
  • Esse microtexto está zombando da sauna, do visitante ou da nossa necessidade de explicar tudo com seriedade museológica?

O cheiro da vingança

Douglas Domingues conto p. 69-72

vingança abdução inversão de perspectiva sadismo trauma

Em segunda pessoa, um sobrevivente da violência humana transforma dor em preparo metódico para retaliar uma espécie inteira, repetindo em nossos corpos os mesmos exames anais que viraram lenda. O conto inverte a paranoia da abdução alienígena e faz da vingança uma pesquisa de campo bastante específica.

Quebra-gelo

  • Em que ponto o conto deixa claro que o narrador é o alienígena, e que a Área 51 está sendo lembrada pela perspectiva do ET?
  • O uso do você te aproximou da dor do narrador ou te deixou mais desconfortável com a própria posição?
  • A sonda anal final fechou mais como piada, ameaça ou justiça poética de procedência discutível?

Cabeção

  • Como o conto muda nossa leitura do imaginário de abdução ao inverter os polos de vítima e agressor?
  • O trauma aqui justifica a vingança ou o texto prefere deixar isso eticamente embolado?
  • Por que a segunda pessoa funciona tão bem para misturar intimidade, paranoia e ameaça?

Não existe bolovo em Marte

Douglas Domingues micro-ensaio p. 73-76

comida brasilidade empreendedorismo colonização saudade

Diante de um comitê avaliativo, um empreendedor argumenta que a colonização de Marte só estará minimamente madura quando houver bolovo, botequim e fast-food brasileiro no planeta vermelho. O texto leva saudade cultural, discurso de startup e brasilidade gastronômica ao mesmo patamar de projeto civilizatório.

Quebra-gelo

  • Você saiu do texto querendo investir ou só respeitando a convicção do projeto?
  • Qual argumento te pareceu mais forte: o energético, o cultural ou o simples fato de que bolovo em Marte seria muito bonito?
  • O texto te convenceu mais como piada gastronômica ou como retrato perfeito de certo empreendedorismo sem freio?

Cabeção

  • O que o bolovo passa a simbolizar quando vira critério de colonização bem-sucedida?
  • Como o texto mistura saudade, identidade cultural e lógica de pitch sem soar frio?
  • Esse micro-ensaio ri mais da ideia de Marte ou da nossa mania de transformar qualquer coisa em oportunidade de negócio?

Elegia lunar

Douglas Domingues poesia p. 77-80

lua poesia arquivo solidão curadoria

Emoldurado por uma nota curatorial meio esnobe, o poema encontrado num módulo lunar abandonado registra o encanto apavorado de alguém preso diante da Lua. A peça é tratada como artefato cultural menor, o que só aumenta a graça e a ternura da sua mistura de assombro, pânico e jazigo bonito.

Quebra-gelo

  • O que te pegou mais aqui: a nota do curador ou o poema em si?
  • Qual verso melhor equilibra beleza e desespero para você?
  • A observação final do curador muda sua leitura do poema para melhor ou só o torna mais perversamente tocante?

Cabeção

  • Como a moldura arquivística altera a experiência do poema sem esmagá-lo?
  • O que esse texto sugere sobre a distância entre valor institucional e impacto afetivo real?
  • Por que a mistura de lirismo e palavrão funciona tão bem neste contexto?

Uma coisinha besta

Douglas Domingues conto p. 81-92

ansiedade logística casamento memória trabalho

Responsável pela logística da primeira missão humana a Marte, um especialista em prever necessidades entra em pânico num supermercado porque esqueceu uma coisinha qualquer. Depois de projetar esse vazio em casamento, carreira e missão histórica, ele descobre no banheiro que o item ausente era papel higiênico, o que infelizmente faz todo sentido.

Quebra-gelo

  • Em que momento a coisinha besta começou a parecer ameaça planetária real?
  • Você ficou mais com pena do narrador, da esposa ou da futura tripulação marciana?
  • Qual detalhe te ganhou mais: o supermercado lotado de compras inúteis, a foto da esposa como ferramenta de gestão ou a coletiva sobre conservação de laticínios?
  • A revelação do papel higiênico fechou como punchline perfeita ou como pesadelo logístico absoluto?

Cabeção

  • Como o conto liga ansiedade doméstica e responsabilidade histórica sem tratar uma como menor que a outra?
  • O casamento do narrador funciona como trauma pessoal, método de gestão ou dispositivo cômico? Talvez os três, o que não ajuda ninguém.
  • Por que esquecer papel higiênico numa missão a Marte parece ao mesmo tempo ridículo e devastador?
  • O que esse texto diz sobre controle quando alguém vive organizado em torno do medo de decepcionar?

Fechamento do encontro

  1. No conjunto, o que este livro diz sobre solidão, improviso e sobrevivência quando o cenário fica cósmico mas a cabeça continua pequena?
  2. Quais textos mais conversam entre si, mesmo estando em escalas muito diferentes?
  3. Quando o livro encosta no grandioso, o que ele insiste em manter mundano, corporal ou ridículo?
  4. Se você tivesse que apresentar o livro com um texto longo e um curto, quais escolheria?