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Capa de Casamentos surreais

Guia capenga de leitura

Casamentos surreais

Perguntas para pensar ou conversar sobre noivas monstruosas, alma em matrimônio, reality de conto de fadas e o velho sonho humano de oficializar o improvável.

Cada conto funciona como cerimônia problemática com sua própria lógica torta. Casamento, nesta antologia, é menos instituição e mais dispositivo narrativo para juntar desejo, vexame, religião, horror, televisão e afeto mal calibrado. O guia serve para comparar esses pactos sozinho ou com outras pessoas, sem exigir traje social nem acreditar na estabilidade de nenhum altar.

Organização Douglas Domingues
Editora edições fuinha
Ano 2026
Estrutura 10 textos

Um altar, dois jeitos de desconfiar do amor

Não é terapia de casal. Até porque vários casais daqui exigiriam outra jurisdição.

Por conta própria

Escolha alguns contos e anote quem se une a quem, qual pacto está sendo feito e onde ele começa a feder. Depois compare as cerimônias sem precisar pegar buquê.

Com outras pessoas

Cada pessoa leva um casamento para a mesa e defende sua classificação: romântico, monstruoso, místico, midiático ou caso de anulação imediata.

Como usar

  • Escolha dois ou três textos por rodada. Se tentar cobrir a antologia inteira de uma vez, a leitura vira recepção de casamento que passou do ponto.
  • Comece pelo concreto: quem casa com quem, qual é o pacto, onde a história desanda e por quê. O livro aceita bem leituras analíticas, mas gosta mais quando a conversa não esquece a cena.
  • Se aparecer discussão sobre matrimônio, religião, monogamia, reality show, erotismo monstruoso ou conto de fadas avariado, aceite. A antologia trabalha exatamente nesse entulho simbólico.

Se der branco: Se der branco, nomeie o tipo de união de cada história: romântica, narcísica, mística, monstruosa, midiática, blasfema ou simplesmente condenável. Essa chave costuma render mais do que tentar domesticar o absurdo logo de saída.

Antes de entrar no assunto

  1. Qual texto te ganhou primeiro: pela premissa, pelo tom ou pela coragem de sustentar uma ideia que em qualquer editora prudente morreria na sinopse?
  2. A antologia te parece mais romântica, mais debochada ou mais interessada em usar casamento como máquina de absurdo?
  3. Que tipo de estranho domina aqui: o estranho do horror, da comédia, da religião ou da pura incompatibilidade com a vida civil?
  4. Depois dos primeiros contos, você passou a ler cada novo altar esperando redenção, tragédia ou só mais vexame de alto nível?

Arranjos de leitura

Escolha uma cerimônia. A lista de presentes foi corretamente omitida.

Cerimônia curta

Leia três ou quatro textos e combine uma pergunta de aquecimento com uma mais funda para cada um. Bom para testar o tom do livro sem transformar a noite em buffet completo.

Alianças temáticas

Agrupe os textos por afinidade: religião e profanação, romance monstruoso, mídia e espetáculo, amor impraticável. Comparar desvios costuma revelar parentescos suspeitos.

Pacote completo

Passe pela antologia inteira em duas ou três rodadas. Leve água, algum cinismo e respeito pelas instituições que este livro pisa de salto.

Texto a texto

10 textos

Apresentação

Douglas Domingues apresentação p. 9-10

absurdo casamento liberdade apresentação

A abertura já entrega o pacto do livro: casamento como escândalo, risco, protocolo sabotado e licença para unir o que não deveria dividir altar. Em vez de normalidade, a apresentação assume o absurdo como liberdade afetiva e narrativa.

Quebra-gelo

  • A apresentação te vendeu a antologia mais pela piada ou pela convicção editorial do delírio?
  • Qual imagem dessa abertura melhor define o livro para você?
  • Você lê esse texto mais como manifesto, convite ou aviso prévio de que ninguém sairá ileso?

Cabeção

  • O que muda quando casamento deixa de ser ideal romântico e vira estrutura para imaginar o impraticável?
  • A apresentação promete deboche puro ou já indica alguma ternura pelo estranho?
  • Como esse texto organiza o leitor para receber histórias tão diferentes sob o mesmo teto?

Gênesis

Tábata Nunes conto p. 11-16

bíblia televisão adultério humor paródia

Eva, recém-inaugurada na existência, é arrastada para uma versão edenizada de programa de auditório comandado por João Kléber. O conto mistura criação do mundo, teste de fidelidade, erotismo debochado e mercadoria milagrosa com convicção suficiente para humilhar qualquer catecismo.

Quebra-gelo

  • Em que momento você aceitou de vez João Kléber no Éden como coisa normal daquela realidade?
  • O conto te pegou mais pela profanação, pela graça ou pela lógica interna absolutamente irresponsável?
  • Qual elemento te parece mais decisivo para a história funcionar: Eva, Adão, a sedutora ou o apresentador?

Cabeção

  • Como o conto usa linguagem televisiva para ridicularizar noções de fidelidade, origem e moral?
  • Eva aparece como vítima, rebelde ou primeira crítica cultural da humanidade?
  • O casamento com o Vibradoris é só piada final ou comentário sobre autonomia e desejo?

Porque não aplaudi

Douglas Domingues conto p. 17-24

arte absurdo palhaço objeto igreja

Um padrinho interrompe a cerimônia para esclarecer o óbvio: a noiva é uma tampa de privada. Daí em diante, o conto vira crise ontológica, palhaçaria filosófica, liturgia torta e comentário sobre livre-arbítrio, bem-casado derretido e amor entre um clown e um objeto trouvé afetivo.

Quebra-gelo

  • O que te fez rir primeiro: a noiva ser literalmente uma tampa de privada ou a reação séria de todo mundo a isso?
  • Você ficou do lado do narrador, do casal ou do sujeito com decibelímetro?
  • Qual detalhe transforma esse conto de piada surreal em algo mais elaborado para você?

Cabeção

  • Como o texto junta crítica de arte, liturgia e humor de constrangimento sem desmontar a cena?
  • O narrador atrapalha a cerimônia por curiosidade honesta ou por incapacidade estrutural de ficar quieto?
  • O conto sugere alguma legitimidade para aquele amor ou só radicaliza a comédia do reconhecimento?

Reality

Bruno Sower conto p. 25-28

conto de fadas reality show televisão espetáculo humor

Branca de Neve reaparece num programa de namoro em que os anões viram tipos masculinos descartáveis e o grande prêmio amoroso vem mediado por biombo, audiência e revelação tardia. É conto de fadas triturado por linguagem televisiva e remontado como espetáculo sentimental de gosto duvidoso.

Quebra-gelo

  • Qual foi o momento em que você percebeu exatamente qual conto de fadas estava sendo desmontado?
  • O texto funciona melhor como paródia de romance televisivo ou como releitura debochada de Branca de Neve?
  • O final te pareceu romântico, cínico ou simplesmente televisivo demais para qualquer confiança?

Cabeção

  • O que a lógica de programa de namoro faz com a estrutura clássica do conto de fadas?
  • Branca aparece aqui mais como personagem emancipada ou como nova refém de outro formato narrativo?
  • Como o conto usa humor para comentar imagem, escolha amorosa e mediação de afeto por espetáculo?

No dia de Vênus

Jozieli Weber conto p. 29-38

alma ritual demônio narcisismo misticismo

Helen passa a vida estudando a alma até decidir que seu único casamento possível é com a própria. Para isso, convoca um demônio, extrai a alma do corpo e transforma narcisismo espiritual, misticismo e desejo de pureza em ritual tão belo quanto obviamente fadado a cobrar um preço.

Quebra-gelo

  • Você leu a obsessão de Helen como devoção, delírio ou projeto de amor próprio levado ao limite errado?
  • Qual parte do ritual mais te fisgou: a preparação, a negociação ou a cerimônia em si?
  • O conto te parece mais romântico, mais sinistro ou as duas coisas ao mesmo tempo?

Cabeção

  • O que o conto diz sobre pureza espiritual quando ela vira desejo possessivo?
  • Casar-se com a própria alma é gesto de autonomia extrema ou colapso total da alteridade?
  • Como o demônio opera aqui: facilitador do desejo, ironista cósmico ou cobrador profissional do impossível?

O dia dos sonhos

Sara Escorsin conto p. 39-54

sonho noivas monstruosidade romance atmosfera

Duas noivas atravessam a igreja como duplicatas de renda escura e pequenas incongruências corporais, conduzindo a cerimônia para uma zona de sonho, monstros delicados e romance levemente apocalíptico. O conto trabalha a estranheza pela atmosfera, não pela pressa, e vai acumulando doçura onde o leitor esperava susto.

Quebra-gelo

  • O que te chamou mais atenção nesse começo: a duplicação das noivas, as quinas na cabeça ou a calma estranha da cena?
  • Você leu esse conto esperando horror, ternura ou metamorfose?
  • Que tipo de imagem ele constrói melhor: igreja, vestido, corpo ou luz?

Cabeção

  • Como o conto produz estranhamento sem depender de choque imediato?
  • O romance entre as noivas parece desafiar a norma de modo delicado, monstruoso ou ambos?
  • O texto conversa mais com conto de fadas sombrio, sonho febril ou ficção gótica afetiva?

Enzo, o grande casamenteiro!

Jazzo Cordeiro conto p. 55-70

preguiça fantasia masculinidade cotidiano casamenteiro

Enzo, jovem preguiçoso e quase ornamental, mal sabe que recebe pagamento mensal por ter servido de elo involuntário a uma história de amor muito menos banal do que sua rotina de miojo com bacon sugeriria. O conto cruza observação cínica sobre masculinidade frouxa com fantasia doméstica e gratidão improvável.

Quebra-gelo

  • O que te diverte mais em Enzo: a inutilidade prática, a autossatisfação ou o fato de ele ser peça central sem saber?
  • Em que ponto o conto deixa de ser sátira de homem folgado e revela sua camada fantástica?
  • Você sentiu mais pena, raiva ou fascínio antropológico pelo protagonista?

Cabeção

  • Como o texto usa a figura do jovem encostado para abrir uma história de amor paralela e muito mais interessante?
  • Enzo é só objeto de zombaria ou acaba funcionando como catalisador involuntário de vínculos reais?
  • O conto fala apenas de preguiça masculina ou também de invisibilidade social e causalidade torta?

Núpcias do Altíssimo

Igor Cabrardo conto p. 71-78

religião erotismo convento sacrifício medo

À espera de uma cerimônia sagrada que a apavora e fascina, Ana Elise atravessa o convento como noiva escolhida para um enlace com o Altíssimo. O conto mistura erotismo, medo religioso e solenidade opressiva até transformar devoção em cena de casamento com forte carga sacrificial.

Quebra-gelo

  • O começo te pareceu mais sensual, mais opressivo ou mais blasfemo?
  • Que imagem desse conto ficou mais forte: a cela, o vestido, o cortejo ou a espera?
  • Você sentiu essa noiva mais escolhida, mais coagida ou presa num meio-termo impossível?

Cabeção

  • Como o conto articula desejo e repressão dentro de uma moldura religiosa tão carregada?
  • Esse casamento funciona como êxtase místico, violência institucional ou as duas coisas juntas?
  • O que o texto revela sobre corpos femininos capturados por linguagem de pureza e vocação?

A stripper e a monstra

Augusto Luiz Melaré conto p. 79-90

monstra erotismo cidade pequena escândalo horror

Em Araçoiaba da Serra, uma stripper célebre e uma criatura lacustre antropófaga resolvem oficializar a união diante de população dividida entre desejo, luto, escândalo e curiosidade. O conto trata o casamento como evento público grotesco, político e sensacionalista, sem perder a ternura grotesca do casal.

Quebra-gelo

  • O que te pegou mais rápido: a descrição da cidade, da stripper ou da monstra?
  • Você leu o conto mais como sátira de conservadorismo, romance grotesco ou espetáculo popular?
  • Qual lado da plateia te parece mais interessante: os devotos do evento ou os enlutados indignados?

Cabeção

  • Como o conto transforma o casamento em arena pública de moral, desejo e ressentimento?
  • Tatiana e Horrenda formam um casal improvável só pela aparência ou também pelas forças simbólicas que carregam?
  • O texto encontra algum afeto sincero por trás do escândalo ou aposta tudo no exagero?

Escrito nas estrelas

Tatiana Morel conto p. 91-98

cemitério romance criaturas gótico humor

Maria Clara, farta de homens ruins, encontra no cemitério e em seus arredores um caminho improvável para outro tipo de vínculo: uma sequência de criaturas, maus presságios e romantismo torto que desemboca num amor felpudo, fúnebre e estranhamente acolhedor. O conto combina humor, gótico pop e conto de encontro sobrenatural.

Quebra-gelo

  • Que elemento te ganhou mais: o obituário, os caixões, a barata gigante ou a preguiça romântica?
  • Você leu a história como paródia de encontro amoroso ou como fantasia gótica sinceramente doce?
  • O conto te parece mais fofo, mais bizarro ou equilibrado na medida exata do problema?

Cabeção

  • Como o texto recicla fracasso amoroso humano em abertura para um vínculo radicalmente outro?
  • O grotesco aqui serve mais para desarmar o medo ou para reinventar o romântico?
  • Por que esse final funciona sem precisar decidir entre piada e ternura?

Depois de tudo

  1. No conjunto, o que esta antologia diz sobre amor, pacto e imaginação?
  2. Quais textos mais conversam entre si, mesmo usando registros bem diferentes?
  3. O livro acerta mais quando ridiculariza o casamento ou quando encontra alguma ternura real dentro do caos?
  4. Se você tivesse que indicar um único conto para apresentar o projeto da antologia a alguém, qual escolheria?