Guia capenga de leitura
Seja seu pior, seja você mesmo, seja um de nós
Perguntas para pensar ou conversar sobre um nós terrorista, um você recrutável, um vocês condenado, sua vó em cursiva, fogo crescente e uma capa que risca fósforo.
Este livro não é só poema, objeto ou bravata, mas um sistema inteiro de convocação. A caligrafia diferencia 'vocês' e 'você', 'sua vó' entra em cursiva, o fundo fotográfico vai incendiando as páginas e a própria capa risca fósforo. Aqui, forma material e discurso não andam separados; por isso este guia também não finge que cinquenta e seis páginas formam apenas um texto comprido e comportado.
Um manifesto, dois jeitos de aceitar a ameaça
Por conta própria
Leia em voz alta, examine a materialidade e acompanhe separadamente 'nós', 'você' e 'vocês'. Anote quando a convocação seduz e quando só aponta uma arma cenográfica muito convincente.
Com outras pessoas
Dividam as vozes ou passem o objeto de mão em mão. Depois comparem quem se sentiu recrutado, ameaçado ou transformado em parte da massa que o manifesto despreza.
Como usar
- Leia em voz alta. A repetição de 'nós', 'vocês' e 'você' muda bastante quando o manifesto ganha corpo sonoro.
- Antes de entrar no texto, reserve alguns minutos para comentar o objeto. Neste livro, design também é sintaxe.
- Não tente domesticar rápido demais o manifesto com rótulos como 'metáfora', 'personagem' ou 'performance'. Primeiro veja o que ele quer destruir, seduzir e recrutar.
Se der branco: Não trate o livro como conteúdo verbal solto. Examine a tremedeira do plural, a calma do singular, a cursiva da vó, o fogo crescente e a capa que acende. Depois pergunte que coletivo está sendo inventado, quem ele seduz, quem expulsa e por que fala de terror com tanto prazer.
Antes de entrar no assunto
- Antes mesmo do conteúdo, como você reage ao objeto desse livro: a capa que risca fósforo, a caligrafia manual e o fogo crescendo até o fim? Gimmick, pacto, ameaça ou tudo isso junto?
- Se um livro já chega com cara de que pode incendiar a mesa, isso te aproxima da leitura ou te dá vontade de chamar um adulto responsável inexistente?
- O 'nós' do manifesto te parece gangue, comunidade, seita, classe, pulsão estética, forma de vida ou uma mistura agressiva disso tudo?
- Quando o livro separa 'você' do singular e 'vocês' do plural, ele está oferecendo abrigo, recrutamento, chantagem ou teste de leitura?
- O fato de 'sua vó' aparecer em cursiva e virar figura central te parece piada interna, dispositivo de afeto, atalho de persuasão ou chave política inesperada?
- Esse manifesto te dá a sensação de que sabe exatamente o que quer ou de que a força dele vem justamente de parecer um pouco possuído?
Três entradas para o incêndio
Leitura em voz alta
Leia o manifesto inteiro em voz alta e só depois responda ou converse. O texto ganha outra pressão quando assume o ritmo de proclamação.
Objeto e texto
Comece pela capa, pela caligrafia e pelo fogo do livro, depois passe ao conteúdo verbal. Funciona melhor para este caso do que fingir que design é decoração.
Autópsia do nós
Organize a leitura em torno das três figuras centrais: o 'nós', o 'você' e o 'vocês'. A partir daí, o resto do livro costuma abrir.
Depois de tudo
- No conjunto, o manifesto te parece mais sedutor, ameaçador, libertador, ridículo ou perigosamente convincente?
- O que muda quando o texto fala de terror, destruição e violência como prazer, vida, criação e expansão, em vez de só negação?
- Qual papel a figura da vó cumpre aqui: ponte afetiva, porta de recrutamento, figura popular que o manifesto quer arrancar do medo ou tudo ao mesmo tempo?
- Se você tivesse que explicar a alguém por que este livro é mais do que um poema comprido, quais três elementos do objeto e do texto você usaria?
- O livro termina mais como convite, ameaça, profecia, performance ou pequeno delírio muito bem diagramado à mão?
- Se você tirar o fogo, a caligrafia e a capa-fósforo, o manifesto continua de pé ou perde parte decisiva da pancada?
- A frase-título te soa mais como conselho de autoajuda do inferno, palavra de ordem, ironia ou programa ético sincero demais para admitir?