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Capa de Seja seu pior, seja você mesmo, seja um de nós

Guia capenga de leitura

Seja seu pior, seja você mesmo, seja um de nós

Perguntas para pensar ou conversar sobre um nós terrorista, um você recrutável, um vocês condenado, sua vó em cursiva, fogo crescente e uma capa que risca fósforo.

Este livro não é só poema, objeto ou bravata, mas um sistema inteiro de convocação. A caligrafia diferencia 'vocês' e 'você', 'sua vó' entra em cursiva, o fundo fotográfico vai incendiando as páginas e a própria capa risca fósforo. Aqui, forma material e discurso não andam separados; por isso este guia também não finge que cinquenta e seis páginas formam apenas um texto comprido e comportado.

Autor Douglas Domingues
Editora edições fuinha
Ano 2023
Estrutura 1 manifesto

Um manifesto, dois jeitos de aceitar a ameaça

Tenha o objeto por perto. Neste caso, design também é sintaxe e risco de incêndio.

Por conta própria

Leia em voz alta, examine a materialidade e acompanhe separadamente 'nós', 'você' e 'vocês'. Anote quando a convocação seduz e quando só aponta uma arma cenográfica muito convincente.

Com outras pessoas

Dividam as vozes ou passem o objeto de mão em mão. Depois comparem quem se sentiu recrutado, ameaçado ou transformado em parte da massa que o manifesto despreza.

Como usar

  • Leia em voz alta. A repetição de 'nós', 'vocês' e 'você' muda bastante quando o manifesto ganha corpo sonoro.
  • Antes de entrar no texto, reserve alguns minutos para comentar o objeto. Neste livro, design também é sintaxe.
  • Não tente domesticar rápido demais o manifesto com rótulos como 'metáfora', 'personagem' ou 'performance'. Primeiro veja o que ele quer destruir, seduzir e recrutar.

Se der branco: Não trate o livro como conteúdo verbal solto. Examine a tremedeira do plural, a calma do singular, a cursiva da vó, o fogo crescente e a capa que acende. Depois pergunte que coletivo está sendo inventado, quem ele seduz, quem expulsa e por que fala de terror com tanto prazer.

Antes de entrar no assunto

  1. Antes mesmo do conteúdo, como você reage ao objeto desse livro: a capa que risca fósforo, a caligrafia manual e o fogo crescendo até o fim? Gimmick, pacto, ameaça ou tudo isso junto?
  2. Se um livro já chega com cara de que pode incendiar a mesa, isso te aproxima da leitura ou te dá vontade de chamar um adulto responsável inexistente?
  3. O 'nós' do manifesto te parece gangue, comunidade, seita, classe, pulsão estética, forma de vida ou uma mistura agressiva disso tudo?
  4. Quando o livro separa 'você' do singular e 'vocês' do plural, ele está oferecendo abrigo, recrutamento, chantagem ou teste de leitura?
  5. O fato de 'sua vó' aparecer em cursiva e virar figura central te parece piada interna, dispositivo de afeto, atalho de persuasão ou chave política inesperada?
  6. Esse manifesto te dá a sensação de que sabe exatamente o que quer ou de que a força dele vem justamente de parecer um pouco possuído?

Três entradas para o incêndio

A saída de emergência continua sendo responsabilidade do leitor.

Leitura em voz alta

Leia o manifesto inteiro em voz alta e só depois responda ou converse. O texto ganha outra pressão quando assume o ritmo de proclamação.

Objeto e texto

Comece pela capa, pela caligrafia e pelo fogo do livro, depois passe ao conteúdo verbal. Funciona melhor para este caso do que fingir que design é decoração.

Autópsia do nós

Organize a leitura em torno das três figuras centrais: o 'nós', o 'você' e o 'vocês'. A partir daí, o resto do livro costuma abrir.

O manifesto

1 manifesto

Seja seu pior

Douglas Domingues poesia p. 2-57

manifesto coletivo terror recrutamento vida

Falando em nome de um 'nós' que se apresenta como célula terrorista estética, vital e antissistêmica, o poema-manifesto alterna ameaça, sedução e convocação. O plural 'vocês' é tratado como massa estéril, métrica, robótica e moralizante, enquanto o singular 'você' recebe a chance de ser infectado, juntar-se ao coletivo e até trazer a própria vó para dentro do caos. O texto quer destruir, mas fala dessa destruição como criação, prazer, liberdade e expansão da vida.

Quebra-gelo

  • Você terminou o manifesto se sentindo mais convocado, mais repelido ou meio lisonjeado pelo convite indevido?
  • Qual palavra ou imagem melhor define esse 'nós' para você: terrorista, vivo, caótico, delirante, artístico, irritante, messiânico?
  • Em que momento a figura da vó deixou de parecer só gag e virou peça central da engrenagem do texto?
  • O manifesto te parece mais sério do que parece, mais engraçado do que parece ou justamente sério e engraçado ao mesmo tempo?
  • Qual foi o ponto em que você pensou: ok, isso aqui não está blefando, só está blefando de um jeito muito particular?
  • Se esse texto fosse lido em voz alta para uma plateia, você imagina mais aplauso, desconforto, adesão, risada nervosa ou gente olhando a saída?

Cabeção

  • Como o poema organiza a diferença entre 'vocês', no plural ameaçado, e 'você', no singular recrutável? O que essa distinção produz politicamente e afetivamente?
  • No livro, 'vocês' treme na caligrafia, 'você' não, e 'sua vó' aparece em cursiva. O que esses gestos gráficos fazem com o sentido do manifesto?
  • O fundo de fogo que vai tomando o livro até o fim e a capa que literalmente risca fósforo transformam a leitura em performance material. Isso aprofunda o manifesto ou corre o risco de virar fetiche do objeto? Talvez os dois, e vale discutir.
  • O texto fala de terror, destruição e violência sem cair numa moral simples. O que ele ganha ao tratar caos e agressão como formas de vida, criação e prazer?
  • Quando o manifesto diz que não é para 'vocês', mas para 'você', ele está realmente abrindo espaço para singularidade ou só refinando a estratégia de contágio?
  • O 'nós' do poema se vende como liberdade absoluta, mas também fala como quem quer dominar o enquadramento inteiro. Onde o texto parece libertário e onde ele soa autoritário com excelente autoestima?
  • Que tipo de trabalho a vó faz dentro do manifesto? Ela humaniza o delírio, populariza a linguagem, cria laço afetivo ou serve como prova de que o recrutamento quer entrar até na família?
  • A caligrafia manual deixa o manifesto mais íntimo, mais ameaçador ou mais performático? O efeito muda quando você pensa que cada palavra parece escrita por alguém que quer muito ser ouvido.
  • O poema parece odiar a massa, mas precisa dela para existir como oposição. O que o texto revela sobre sua dependência do inimigo que ele chama de 'vocês'?
  • Se você ler o livro como manifesto estético e não como programa literal, o que muda? E o que continua desconfortavelmente literal mesmo assim?

Depois de tudo

  1. No conjunto, o manifesto te parece mais sedutor, ameaçador, libertador, ridículo ou perigosamente convincente?
  2. O que muda quando o texto fala de terror, destruição e violência como prazer, vida, criação e expansão, em vez de só negação?
  3. Qual papel a figura da vó cumpre aqui: ponte afetiva, porta de recrutamento, figura popular que o manifesto quer arrancar do medo ou tudo ao mesmo tempo?
  4. Se você tivesse que explicar a alguém por que este livro é mais do que um poema comprido, quais três elementos do objeto e do texto você usaria?
  5. O livro termina mais como convite, ameaça, profecia, performance ou pequeno delírio muito bem diagramado à mão?
  6. Se você tirar o fogo, a caligrafia e a capa-fósforo, o manifesto continua de pé ou perde parte decisiva da pancada?
  7. A frase-título te soa mais como conselho de autoajuda do inferno, palavra de ordem, ironia ou programa ético sincero demais para admitir?