edições fuinha editora estranha
Capa de Poesia homeopática

Guia capenga de leitura

Poesia homeopática

Um guia para um livro de 15 mil palavras em que 14.999 são 'água' e uma é 'cura'. Não há muito o que ler. Há alguma coisa para discutir.

Poesia homeopática não pede leitura linha a linha. A operação se entende rápido: são 15 mil palavras, 14.999 vezes 'água' e uma única 'cura' escondida no meio do livro. A capa, a frase 'A água talvez até se lembre, mas não se importa', a escala do objeto e a existência dessa palavra intrusa fazem o trabalho. Este guia não vai inventar dever de casa onde não existe. Serve só para mexer na piada, na forma e na cara de pau depois que você já entendeu o mecanismo.

Autor Douglas Domingues
Editora edições fuinha
Ano 2024
Estrutura 1 experimento

Um objeto, dois jeitos de arrumar problema

Não é preciso fingir que há uma leitura convencional acontecendo.

Por conta própria

Entenda a regra, folheie o objeto e escolha se vai caçar a 'cura'. Depois responda ao que interessar. Não há prêmio por resistência hidráulica.

Com outras pessoas

Passe o livro de mão em mão, deixe cada pessoa descobrir a regra e discutam o que ela produz. Leitura coletiva de 14.999 águas foi corretamente descartada.

Como usar

  • Veja a capa, a frase de abertura e folheie o miolo até entender a regra. Isso basta. Ninguém precisa fingir que leu 'água' 14.999 vezes.
  • Decida se quer procurar a única 'cura'. Encontrá-la é opcional; saber que ela existe já altera a piada.
  • Escolha apenas as perguntas que ainda tiverem graça depois que o mecanismo estiver claro.
  • Pare quando quiser. O livro já exagerou por você.

Se der branco: Se uma pergunta começar a transformar 14.999 águas numa tese obrigatória, pule. O livro não exige que você prove que sofreu o bastante para merecer uma opinião.

Antes de entrar no assunto

  1. Quinze mil palavras: 14.999 vezes 'água' e uma vez 'cura'. Isso te pareceu genial, idiota ou corretamente as duas coisas?
  2. Saber que existe uma 'cura' escondida dá vontade de procurar ou torna a ideia melhor justamente porque você pode não procurar?
  3. Sua primeira reação foi tratar isso como poema, objeto, piada editorial ou desperdício de papel com ficha catalográfica?

Jeitos de usar o objeto

Escolha uma dose. A bula foi extraviada pela própria editora.

Dose mínima

Capa, frase de abertura, algumas viradas de página e pronto: o mecanismo está administrado.

Caça à cura

Procure a única palavra diferente no meio das outras 14.999. Pode ser sozinho, em grupo ou com arrependimento.

Objeto na mesa

Não procure nada. Converse sobre título, capa, escala, repetição e a necessidade material de imprimir a mesma palavra sessenta páginas seguidas.

O experimento inteiro

1 experimento

14.999 águas e uma cura

Douglas Domingues poema-objeto p. 3-64

repetição homeopatia objeto-livro atenção esgotamento

O miolo contém 15 mil palavras: 14.999 ocorrências de 'água' e uma única 'cura' escondida. Não há narrativa, progressão ou leitura continuada a cumprir. O trabalho está na regra, na escala física da repetição, na piada com a homeopatia e no fato de que a única diferença pode ser encontrada ou permanecer diluída para sempre.

Quebra-gelo

  • Quantas páginas você folheou antes de concluir que o livro realmente pretendia levar a ideia até o fim?
  • Você procurou a 'cura', pretende procurar ou prefere preservar o pouco mistério que ainda resta?
  • Se fossem apenas três páginas de 'água', a piada seria mais eficiente ou deixaria de justificar a existência do objeto?

Cabeção

  • Como o livro brinca com a lógica homeopática ao mesmo tempo em que a inverte: promete doses mínimas, mas entrega abundância literal da mesma palavra e quase nenhuma variação de sentido?
  • A escala de 14.999 águas acrescenta algo que a explicação da ideia não conseguiria acrescentar?
  • A 'cura' funciona como prêmio, prova de que a capa não mentiu ou pequena sabotagem da repetição perfeita?
  • Isto depende mais do texto ou do objeto físico que ocupa espaço, custa dinheiro e obriga alguém a imprimir sessenta páginas da mesma palavra?
  • O livro zomba mais da homeopatia, da poesia conceitual ou da nossa tendência de respeitar qualquer coisa que tenha ISBN?

Depois de tudo

  1. O livro precisaria mesmo ter sessenta páginas para funcionar, ou o excesso material é justamente a parte que impede a piada de caber num post?
  2. A única 'cura' escondida completa a proposta, sabota a monotonia ou só recompensa quem resolveu perder tempo procurando?
  3. Como você apresentaria este livro sem explicar demais e matar a única surpresa disponível?