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Capa de Poesia homeopática

Guia capenga para clubes de leitura

Poesia homeopática

Perguntas para conversar sobre água demais, uma cura microscópica, memória da água, diluição, paciência leitora e um livro que faz piada séria com a própria dose.

A ideia aqui é conversar com um livro que leva uma premissa besta o suficiente para poder ficar ótima: chamar-se Poesia homeopática, prometer na capa que tudo está ali em quantidades mínimas e, no miolo, despejar página atrás de página da palavra 'água'. Antes disso, ainda deixa a frase 'A água talvez até se lembre, mas não se importa', como quem zomba ao mesmo tempo da memória da água, da vontade de achar transcendência em qualquer coisa e do leitor que topou entrar nessa. E o livro ainda esconde uma única 'cura' no meio do dilúvio, o que muda bastante o jogo: deixa de ser só repetição cega e vira também recompensa microscópica, desvio homeopático e pegadinha de atenção. Aqui, poema, objeto, piada, provocação e teste de resistência andam juntos.

Autor Douglas Domingues
Editora edições fuinha
Ano 2024
Estrutura 1 poema

Como usar

  • Comece pela capa e pela frase 'A água talvez até se lembre, mas não se importa'. Sem essa moldura, o miolo vira outra piada.
  • Não é obrigatório ler sessenta páginas de 'água' em voz alta como se o clube estivesse pagando promessa. Ler trechos, amostrar páginas e discutir o efeito já funciona muito bem.
  • Se o grupo topar a experiência completa, melhor ainda: turnos curtos de leitura ajudam a perceber quando o poema vira paisagem, irritação, mantra ou ruído branco.
  • Trate a reação do grupo como parte do material. Tédio, riso, impaciência, defesa teimosa e vontade de jogar o livro na pia são dados válidos.
  • Se a conversa estiver muito confortável, puxe a existência da única 'cura' escondida no miolo. Ela reposiciona o livro inteiro sem precisar de muito alarde.

Dica de mediação: Não tente salvar este livro com interpretações maiores do que ele talvez queira carregar, mas também não descarte tudo como pegadinha e pronto. O melhor caminho é perguntar o que a repetição faz com a paciência, com o corpo, com a atenção e com a fome de sentido do grupo. A capa importa, a frase de abertura importa, a escala importa, e a irritação também conta como resultado de leitura. E a única 'cura' escondida no mar de 'água' não é detalhe decorativo: ela transforma o livro em promessa cumprida de desvio mínimo. Se alguém disser 'mas é só água', ótimo: a conversa começa exatamente aí e agora já não termina do mesmo jeito.

Aquecimento do encontro

  1. A capa já promete que tudo o que você procura está ali, mas em quantidades tão mínimas que só os atentos perceberão. Isso te ganhou, te irritou ou te fez respeitar a cara de pau imediatamente?
  2. Quando você percebe que o miolo é basicamente sessenta páginas de 'água', sua reação foi mais 'genial', 'idiota', 'os dois' ou 'preciso de mais alguns minutos antes de me comprometer'?
  3. Saber que existe uma única 'cura' escondida no mar de 'água' te faz ler o livro mais como caça microscópica, piada conceitual ou promessa de capa finalmente honrada?
  4. A frase 'A água talvez até se lembre, mas não se importa' te parece mais deboche científico, filosofia de boteco, aviso de leitura ou pequeno tapa preventivo no leitor?
  5. Você entrou nesse livro com mais disposição para rir, para implicar ou para tentar defender o experimento com uma seriedade talvez excessiva?
  6. Nesse projeto, a sensação dominante para você é de escassez, de excesso ou da combinação irritante das duas coisas?

Modos de encontro

Escolha um formato e bagunce a conversa com método.

Conta-gotas

Leia a capa, a frase de abertura e algumas páginas espalhadas do miolo. Bom para conversar sobre o projeto sem morrer afogado em coerência.

Imersão

Faça uma leitura longa e contínua do miolo, em revezamento. O grupo sente melhor quando a palavra deixa de ser palavra e vira ambiente.

Objeto e dose

Comece pelo título, pela promessa da capa e pela piada com homeopatia; só depois entre no poema. Funciona bem para separar conceito, execução e efeito.

O poema

1 poema

Poesia homeopática

Douglas Domingues poesia p. 3-64

repetição homeopatia objeto-livro atenção esgotamento

Depois de uma frase de abertura que sugere que a água talvez lembre, mas não ligue, o livro mergulha numa repetição radical da palavra 'água' por dezenas de páginas. O gesto é tão simples que quase ofende, mas justamente por isso abre várias frentes de leitura: paródia da homeopatia, piada sobre diluição, poema-objeto sobre atenção, teste de paciência e experiência em que a virada de página pesa tanto quanto o vocábulo repetido. No meio do percurso, uma única 'cura' escondida interrompe o regime da água e muda o livro de repetição pura para repetição com desvio mínimo programado.

Quebra-gelo

  • Em que página você parou de ler 'água' como palavra e começou a ler o bloco como textura, parede ou pequena perseguição?
  • Descobrir que existe uma única 'cura' escondida te dá mais vontade de bancar o detetive hidratado ou mais vontade ainda de implicar com o livro?
  • Ler esse miolo te deixou mais perto de meditação, de trollagem editorial ou de campanha involuntária de hidratação?
  • Se o livro tivesse três páginas de 'água' em vez de sessenta, ele ficaria mais forte ou perderia justamente o seu veneno principal?
  • O que pesa mais na experiência: a primeira surpresa, a repetição prolongada ou o fato de o livro continuar insistindo mesmo depois que a piada já foi entendida?

Cabeção

  • Como o livro brinca com a lógica homeopática ao mesmo tempo em que a inverte: promete doses mínimas, mas entrega abundância literal da mesma palavra e quase nenhuma variação de sentido?
  • O que a frase 'A água talvez até se lembre, mas não se importa' faz com a leitura do resto? Ela ironiza a memória da água, esvazia a expectativa mística ou simplesmente marca o tom de indiferença do objeto inteiro?
  • Em que momento a repetição deixa de ser conteúdo e passa a funcionar como duração, desgaste e procedimento?
  • Este poema depende mais da palavra 'água' em si ou do trabalho físico de virar página depois de página sem recompensa nova aparente?
  • A única 'cura' escondida funciona mais como prêmio para o leitor atento, sabotagem da monotonia, ironia terapêutica ou gatilho para reler tudo de outro jeito?
  • O livro parece zombar mais da homeopatia, da poesia conceitual, do leitor faminto por sentido ou de todos eles ao mesmo tempo?
  • Que tipo de atenção este objeto exige: atenção microscópica, atenção cínica, atenção paciente ou só a humildade de admitir que talvez não haja muito mais do que isso mesmo?
  • A irritação aqui é um efeito colateral dispensável ou uma parte central da obra? O poema perde algo se o leitor atravessa tudo sem nenhuma resistência?
  • Sem a 'cura', este livro seria um experimento mais puro ou simplesmente menos interessante? O desvio mínimo fortalece a proposta ou a torna mais espirituosa e menos ascética?
  • Como a capa conversa com o miolo? O texto da capa promete pouco, o miolo entrega muito do mesmo e, no meio disso, a leitura fica presa entre escassez conceitual e excesso material.
  • Se você pensar este livro como performance e não só como texto, onde exatamente está a performance: na leitura, no objeto, na piada inicial, no tempo gasto ou no constrangimento de defender a obra em voz alta?
  • O que esse livro testa com mais crueldade: nossa fé em significado, nossa tolerância a procedimentos conceituais ou nossa tendência de respeitar qualquer coisa impressa em formato de livro?

Fechamento do encontro

  1. No fim, este livro te parece mais piada conceitual, poema visual-verbal, performance de resistência, crítica à homeopatia ou uma mistura bem dosada desse caldo?
  2. O que mudou mais do começo ao fim: o livro ou a sua disposição de continuar chamando isso de poema sem corar?
  3. Se você tirar a capa, o título e a frase da água indiferente, o miolo ainda se sustenta ou perde a maior parte da graça e da força?
  4. A única 'cura' escondida resolve alguma coisa, ironiza a própria ideia de cura ou só prova que o livro sabe exatamente onde apertar o leitor?
  5. O livro funciona melhor como ataque à vontade de achar sentido em tudo ou como prova de que até o quase nada pode produzir leitura, clima e discussão?
  6. Se alguém odiasse essa experiência, você acharia que a pessoa leu errado ou justamente que leu certo demais?
  7. Se você tivesse que apresentar este livro para alguém sem estragar o susto, qual seria a pior e a melhor maneira de resumir o que acontece aqui?