Por conta própria
Leia em ordem e acompanhe personagens, objetos e assuntos recorrentes. Marque onde a voz parece criança, onde o adulto vaza e onde ninguém deveria chamar o conselho tutelar sem antes ler a Nota final.
Guia capenga de leitura
Perguntas para pensar ou conversar sobre WordArt, Cheetos Bolinha, Pokémon, Totó, vó morta, Tia Juju e um poeta de 41 anos fingindo ter 11 sem pedir desculpa.
O livro simula lição de casa, fanzine escolar e poesia infantil ao mesmo tempo, mas faz isso com rigor demais para ser só gracinha. A capa em chave de WordArt, a folha de tarefa, a voz de aluno do quinto ano, os personagens recorrentes e a Nota final armam um jogo de máscara que vale tanto quanto os poemas. Ler tudo como peças avulsas perde metade do barato e provavelmente rende nota baixa.
Autor Douglas Domingues
edições fuinha · 2025 · 18 textos · ISBN impresso 978-65-84058-01-9
Leia em ordem e acompanhe personagens, objetos e assuntos recorrentes. Marque onde a voz parece criança, onde o adulto vaza e onde ninguém deveria chamar o conselho tutelar sem antes ler a Nota final.
Cada pessoa escolhe um poema e identifica a regra da máscara. Depois comparem as crianças imaginadas, as interferências adultas e os diferentes níveis de preocupação pedagógica.
Se der branco: Não comece decidindo se os poemas são 'bons'. Descubra primeiro quem está fingindo ser quem, o que a forma escolar permite e onde a voz fica infantil, cruel, tocante ou adulta demais. Não pule a Introdução nem a Nota final: aqui, o paratexto fez a lição.
Passe pelo livro em ordem, da folha da tarefa à nota final. É o modo que mais respeita a encenação e a coesão do conjunto.
Agrupe por famílias de assunto: escola, religião, corpo, Totó, vó e inadequação social. As rimas internas aparecem mesmo quando o poema finge que esqueceu a matéria.
Leia a Introdução, alguns poemas centrais e feche com a Nota final. É o atalho para estudar a voz do livro sem dissecar linha por linha.
01 / 18
A voz do suposto aluno apresenta o livrinho como tarefa escolar que saiu do controle, recusa a ideia de poesia profunda e praticamente desafia o leitor a achar tudo besta. A introdução já estabelece o pacto do livro: brincar de menoridade para atacar as expectativas adultas sobre poesia, sentido e bom gosto.
Palavras suspeitas: paratexto / poética / máscara / escola / provocação
Alguma coisa que pareceu importante na hora
02 / 18
Entre nojo, vício, prazer e rebeldia doméstica, o poema transforma Cheetos Bolinha em objeto total de desejo, autoafirmação e futura decadência adulta. O exagero infantil convive com uma inteligência cômica muito pouco inocente sobre consumo e autossabotagem.
Palavras suspeitas: comida / corpo / rebeldia / consumo / infância
Alguma coisa que pareceu importante na hora
03 / 18
O poema começa com toda a pose de mágoa amorosa ou literária e só no final revela que a grande incompreensão em jogo era em torno de cartas Pokémon. A quebra é simples, mas funciona porque o texto leva a sério, até o último segundo, a dor de não ter o próprio tesouro reconhecido.
Palavras suspeitas: coleção / reconhecimento / dramaticidade / Pokémon / repetição
Alguma coisa que pareceu importante na hora
04 / 18
Ao descrever a família ideal do amigo, o eu lírico monta um quadro de ordem, diálogo e mesa posta que parece oposto ao seu próprio mundo. O último verso, porém, recoloca tudo em espelho e transforma inveja em jogo de projeções mútuas.
Palavras suspeitas: família / idealização / projeção / amizade / cotidiano
Alguma coisa que pareceu importante na hora
05 / 18
Num canto de vingança escolar, a ausência do colega odiado na excursão vira pequeno acontecimento histórico, moral e musical. O poema é cruel do jeito infantil costuma ser, mas sabe exatamente como extrair ritmo e alegria da desgraça alheia.
Palavras suspeitas: escola / crueldade / rivalidade / refrão / infância
Alguma coisa que pareceu importante na hora
06 / 18
Entre culpa doméstica e catequese, o poema transforma o ato de catar a sujeira do Totó em verdadeira prova de virtude cristã. Deus, mãe, sacolinha e comunhão entram no mesmo raciocínio moral, para nosso benefício crítico e olfativo.
Palavras suspeitas: religião / culpa / Totó / moral / escatologia
Alguma coisa que pareceu importante na hora
07 / 18
O poema começa em tom catequético e rapidamente degringola para uma oração meio preguiçosa, meio sincera, que termina pedindo pela vó e pelo Totó com um amém apressado. É fé infantil filtrada por tédio, hábito e carinho torto.
Palavras suspeitas: fé / linguagem / vó / Totó / humor
Alguma coisa que pareceu importante na hora
08 / 18
Em forma de lista, o poema junta snacks, puberdade, disciplina, castigo, inferno e apocalipse numa mesma economia emocional. O efeito é o de um inventário perfeitamente desequilibrado de coisas que pesam na cabeça de alguém entre o recreio e a condenação eterna.
Palavras suspeitas: lista / ansiedade / corpo / escola / apocalipse
Alguma coisa que pareceu importante na hora
09 / 18
Falando com a mãe e falando como se fosse o próprio brinquedo, o eu lírico transforma Beyblade em identidade, força cósmica, chantagem afetiva e projeto de destruição giratória. O poema é maníaco, repetitivo e estranhamente bonito na energia com que insiste.
Palavras suspeitas: brinquedo / mãe / repetição / energia / identidade
Alguma coisa que pareceu importante na hora
10 / 18
O poema relembra a morte da vó com Dramin, churros, gato, salmo sem sentido e ausência de choro, até projetar a própria morte no espelho dessa experiência. Entre humor deslocado e frieza perplexa, a cena fica mais triste justamente porque ninguém manda sentir do jeito certo.
Palavras suspeitas: luto / vó / família / morte / deslocamento
Alguma coisa que pareceu importante na hora
11 / 18
Partindo do pum como medida íntima da existência, o poema diferencia o próprio peido do peido alheio e constrói uma filosofia doméstica da presença corporal. O resultado é um texto escatológico, íntimo e tecnicamente bastante focado no que quer feder.
Palavras suspeitas: corpo / pum / intimidade / escatologia / autoimagem
Alguma coisa que pareceu importante na hora
12 / 18
Depois de pôr apelido cruel na Catarina, o eu lírico tenta redistribuir a culpa entre Deus, os corpos e ele mesmo, até cair num pedido de reconciliação que envolve LEGO e xingamento compensatório. O poema mistura maldade, vergonha e tentativa de reparo com rara precisão infantil.
Palavras suspeitas: culpa / apelido / reparo / amizade / Deus
Alguma coisa que pareceu importante na hora
13 / 18
Num catálogo de incompetências recreativas, escolares, esportivas e sociais, o eu lírico monta um retrato impiedoso de si até rejeitar o rótulo de bom rapaz. O poema é engraçado, acumulativo e mais triste do que parece quando a inadequação deixa de ser detalhe e vira sistema.
Palavras suspeitas: inadequação / masculinidade / autoimagem / escola / desempenho
Alguma coisa que pareceu importante na hora
14 / 18
Entre a recusa da educação física, do mangá e das identidades prontas oferecidas ao redor, o poema converte indecisão em programa estético de invenção da própria cagada. A falta de gosto definido vira, aqui, uma forma de desobediência inteligente.
Palavras suspeitas: escolha / identidade / recusa / escola / invenção
Alguma coisa que pareceu importante na hora
15 / 18
Totó aparece aqui como modelo de liberdade corporal, irresponsabilidade doméstica e ausência completa de lição de casa. O poema transforma a inveja do cachorro num retrato muito eficiente da vida humana como acúmulo de obrigação, vergonha e autocontenção.
Palavras suspeitas: Totó / liberdade / família / corpo / obrigação
Alguma coisa que pareceu importante na hora
16 / 18
O futuro profissional vai sendo testado e descartado por critérios bastante honestos até aparecer a fantasia do golpista e, logo depois, o triste realismo do engenheiro porque o pai falou e dá dinheiro. O poema condensa sonho, cinismo e expectativa paterna com poucas linhas e nenhum verniz.
Palavras suspeitas: futuro / trabalho / pai / dinheiro / cinismo
Alguma coisa que pareceu importante na hora
17 / 18
Respondendo à professora fictícia, o poema transforma decepção escolar em oportunidade de método, projeto e quebra deliberada de expectativa. O castigo vira quase troféu quando a imagem de bom aluno já não basta e o sujeito decide produzir surpresa como assinatura.
Palavras suspeitas: escola / autoridade / expectativa / desvio / performance
Alguma coisa que pareceu importante na hora
18 / 18
Na saída, o autor puxa o tapete: Tia Juju não existe, o livro foi escrito por um homem de 41 anos fingindo ser um menino de 11 fingindo ser um poeta adulto. Longe de desfazer o projeto, a nota o radicaliza ao defender a poesia como artifício de ludicidade, alteridade e invenção autorizada.
Palavras suspeitas: paratexto / autoria / máscara / pastiche / poética
Alguma coisa que pareceu importante na hora