Guia capenga de leitura
Lição de casa da quinta B levada muito muito a sério
Perguntas para pensar ou conversar sobre WordArt, Cheetos Bolinha, Pokémon, Totó, vó morta, Tia Juju e um poeta de 41 anos fingindo ter 11 sem pedir desculpa.
O livro simula lição de casa, fanzine escolar e poesia infantil ao mesmo tempo, mas faz isso com rigor demais para ser só gracinha. A capa em chave de WordArt, a folha de tarefa, a voz de aluno do quinto ano, os personagens recorrentes e a Nota final armam um jogo de máscara que vale tanto quanto os poemas. Ler tudo como peças avulsas perde metade do barato e provavelmente rende nota baixa.
Uma tarefa, dois jeitos de levar a quinta B a sério
Por conta própria
Leia em ordem e acompanhe personagens, objetos e assuntos recorrentes. Marque onde a voz parece criança, onde o adulto vaza e onde ninguém deveria chamar o conselho tutelar sem antes ler a Nota final.
Com outras pessoas
Cada pessoa escolhe um poema e identifica a regra da máscara. Depois comparem as crianças imaginadas, as interferências adultas e os diferentes níveis de preocupação pedagógica.
Como usar
- Leia em ordem. Este livro parece picado, mas vai montando contexto, personagens e uma ideia de mundo muito própria.
- Se a leitura travar, volte para os elementos recorrentes: Tia Juju, Totó, a vó, os pais, a escola, a religião, os snacks, a vergonha. Eles costuram mais do que parece.
- Reserve um momento para falar do conjunto como se o livro estivesse montando um personagem. Perguntas sobre 'que criança é essa' ou 'isso é caso de conselho tutelar?' funcionam melhor no atacado.
- Se alguém disser 'isso nem é poesia', ótimo. O próprio livro deixou essa briga aberta e claramente quer ver o que acontece.
Se der branco: Não comece decidindo se os poemas são 'bons'. Descubra primeiro quem está fingindo ser quem, o que a forma escolar permite e onde a voz fica infantil, cruel, tocante ou adulta demais. Não pule a Introdução nem a Nota final: aqui, o paratexto fez a lição.
Antes de entrar no assunto
- Antes do miolo, a folha da tarefa e a capa em chave de WordArt já montam uma encenação. Isso te ganhou, te desarmou ou te deixou desconfiado do truque?
- A voz do livro te convence como criança de 11 anos, como adulto brincando disso ou justamente como mistura instável das duas coisas?
- Os poemas te pareceram avulsos no começo ou você foi percebendo um contextinho recorrente de família, escola, fé, Totó e pequenas humilhações?
- O livro zomba da poesia adulta, presta homenagem a ela ou usa esse pastiche para fazer outra coisa mais esquisita?
- No atacado, quem é esse protagonista-autor inventado: uma criança com problema, uma máscara cômica muito esperta, um pequeno caso clínico poético ou uma mistura desconfortável disso tudo?
Formas de fazer a lição
Caderno inteiro
Passe pelo livro em ordem, da folha da tarefa à nota final. É o modo que mais respeita a encenação e a coesão do conjunto.
Núcleos
Agrupe por famílias de assunto: escola, religião, corpo, Totó, vó e inadequação social. As rimas internas aparecem mesmo quando o poema finge que esqueceu a matéria.
Máscara e furo
Leia a Introdução, alguns poemas centrais e feche com a Nota final. É o atalho para estudar a voz do livro sem dissecar linha por linha.
Depois de tudo
- A Nota final desfaz a mágica ou deixa o livro mais interessante por revelar a estrutura de fingimentos?
- Quais personagens, objetos ou assuntos recorrentes mais ajudam a costurar o conjunto?
- Se essa voz existisse fora do livro, você acharia graça, preocupação real, vontade de chamar os pais, o psicólogo ou o conselho tutelar? O que no livro produz essa reação?
- Que papel a religião tem na vida desse eu lírico: culpa, linguagem herdada, disciplina, barganha afetiva, vínculo com a vó e o Totó ou só cenário de performance?
- Onde o livro acerta mais: na voz infantil, na crueldade engraçada, na melancolia que escapa ou na provocação sobre o que conta como poesia?
- Se você tivesse que apresentar o projeto do livro para alguém com dois poemas e a Nota final, quais poemas escolheria?