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Capa de Eletrodomésticos assombrados

Guia capenga para clubes de leitura

Eletrodomésticos assombrados

Perguntas para fazer um clube de leitura conversar sobre air fryer carente, cafeteira ressentida e o fato nada tranquilo de que a vida doméstica já era meio assombrada.

A ideia aqui é destravar conversa, aproximar contos e dar alguma forma ao caos. Não precisa usar tudo. Se usar tudo, o encontro vira vistoria técnica da cozinha brasileira e isso parece excesso de zelo.

Organização Douglas Domingues
Editora edições fuinha
Ano 2025
Estrutura 21 textos

Como usar

  • Escolha duas ou três perguntas por conto. O guia existe para ajudar a conversa, não para transformar o clube num teste de resistência emocional com cafeteira envolvida.
  • Se o grupo travar, volte para o básico: cena favorita, objeto mais suspeito, final mais absurdo. Funciona mais do que parece e exige menos heroísmo metodológico.
  • Se a discussão descambar para histórias de eletro usado, trauma com assistência técnica ou medo legítimo de air fryer, aceite. O livro claramente quer isso.

Dica de mediação: Comece por uma pergunta concreta, deixe o grupo rir e só depois puxe a camada mais funda da história. Horror doméstico funciona melhor quando ninguém precisa montar banca de mestrado no meio de uma discussão sobre liquidificador possuído.

Aquecimento do encontro

  1. Qual conto te ganhou mais rápido: pelo susto, pelo absurdo ou pela cara de 'isso não devia funcionar, mas funciona'?
  2. Que eletrodoméstico desta antologia te pareceu mais convincente como assombração, e qual te pareceu mais humilhante para a espécie?
  3. O livro te soou mais engraçado, mais melancólico ou mais cruel com a vida doméstica?
  4. Depois das primeiras histórias, você passou a olhar para objetos comuns com mais ternura, mais desconfiança ou só vontade de tirar tudo da tomada?

Modos de encontro

Escolha um formato e bagunce a conversa com método.

Rodada bivolt

Escolha três ou quatro histórias e faça uma pergunta de quebra-gelo e uma cabeçona para cada. Dá para testar o formato sem pedir licença ao calendário.

Pane temática

Agrupe os textos por assunto: solidão e companhia, trabalho e exploração, objetos que acolhem, objetos que claramente deveriam ser apreendidos.

Ciclo completo

Passe pela antologia inteira em dois ou três encontros. Leve café por sua conta e risco.

Texto a texto

21 textos

Espírito de cooktop

Danilo Heitor conto p. 13-24

gênero corpo masculinidade consumo possessão

Giovana compra um cooktop usado e descobre que ele não tem exatamente defeito: tem opinião. O eletro rejeita comidas que considera pouco másculas, exige um exorcismo maromba e termina espalhando sua lógica grotesca para além da bancada.

Quebra-gelo

  • Qual foi o momento em que você percebeu que o cooktop não estava só quebrado, estava ideologicamente comprometido?
  • Que detalhe do exorcismo maromba te fez rir mais alto ou desistir um pouco da espécie?
  • Se você fosse a Giovana, em que ponto largaria o cooktop na calçada e fingiria desapego espiritual?
  • Qual comida você usaria como teste definitivo para medir o nível de babaquice do espírito?

Cabeção

  • Como o conto usa humor para falar de masculinidade performática e controle do corpo?
  • O eletro parece carregar a violência do antigo dono ou só revela algo que já circula socialmente por toda parte?
  • O final muda a história de assombração para uma história de contágio de comportamento?
  • A posse final funciona mais como piada, castigo ou comentário sobre a facilidade com que certos discursos grudam?

Domingo eu quero ver...

Ricardo Balbino conto p. 25-28

televisão pesadelo humor absurdo cultura popular monstruosidade

Lourdes encontra na sala uma criatura geladeira que fala como apresentador de auditório e transforma a madrugada num desfile de bordões e ameaça ridícula. O conto é curto, seco e muito eficiente em mostrar que televisão demais talvez faça mal, mas de um jeito literariamente útil.

Quebra-gelo

  • Você leu a criatura como monstro mesmo ou como pesadelo patrocinado pela TV aberta?
  • Qual bordão ou imagem deixou a história mais engraçada para você?
  • Esse conto te deu mais vontade de rir ou de dormir com a televisão bem desligada?

Cabeção

  • O que a mistura de eletrodoméstico e linguagem de auditório diz sobre entretenimento e invasão do cotidiano?
  • A brevidade do conto ajuda o efeito ou te deixou querendo um pouco mais de caos?
  • Por que essa história funciona tão bem tratando o absurdo como se fosse quase rotina?
  • O fim seco, com a tevê desligada e nada explicado, te parece mais engraçado ou mais sinistro?

O micro-ondas

Pedro Valle conto p. 29-42

dependência amizade prazer consumo horror cósmico

Júlia compra um micro-ondas usado que aquece comida e altera estados de espírito com eficiência suspeita. Entre prazer, dependência e fascínio, o conto transforma um eletro banal em portal para algo muito sedutor e claramente nada confiável.

Quebra-gelo

  • Em que momento você parou de pensar 'que micro-ondas ótimo' e começou a pensar 'isso vai dar muito errado'?
  • Qual cena te convenceu mais do poder sedutor do aparelho?
  • Se alguém te servisse uma comida dessas, você provaria por curiosidade ou fingiria maturidade por cinco minutos?

Cabeção

  • O micro-ondas funciona mais como metáfora de vício, de fuga emocional ou de desejo por transcendência fácil?
  • Como a relação entre o narrador e a Júlia muda conforme o aparelho vai ocupando espaço entre eles?
  • O conto sugere que certas experiências extraordinárias são perigosas justamente porque parecem boas demais?

A coisa que vive no descascador de batatas elétrico

Rodrigo Koehler conto p. 43-54

objeto amaldiçoado violência humor negro mercado de usados escalada do absurdo

Um descascador de batatas elétrico passa de bugareza inútil a instrumento homicida com uma desenvoltura preocupante. O conto abraça o horror doméstico com humor seco, escalando do incômodo para a carnificina sem nunca perder o prazer de soar absurdamente plausível.

Quebra-gelo

  • Quando a história te ganhou de vez: no eletro específico demais, no primeiro ataque ou no destino final do aparelho?
  • O que é mais engraçado aqui: a seriedade com que tratam a ameaça ou o fato de ela vir de um descascador de batatas?
  • Depois desse conto, qual objeto doméstico secundário te parece mais capaz de guardar ódio?

Cabeção

  • Como o conto usa a lógica do reaproveitamento e da revenda para manter o terror circulando?
  • A graça da história depende da banalidade do objeto ou da forma séria com que o texto encena o horror?
  • O final deixa a sensação de caso encerrado ou de cadeia produtiva do mal muito bem estabelecida?

Liquidi-fí-ga-ro

Gustavo Paschoim conto p. 55-66

arte família voz humor objetos usados

Um liquidificador de segunda mão começa a emitir vozes e acaba revelando uma vocação lírica bastante empenhada. O conto mistura família, aspiração artística e assombração operística até provar que o ridículo, se bem afinado, pode ficar surpreendentemente bonito.

Quebra-gelo

  • Qual foi sua reação inicial ao descobrir que o liquidificador queria cantar, não triturar?
  • Que detalhe deixou a história mais carinhosa para você no meio de tanta maluquice?
  • Se um eletro seu começasse a interpretar ária em casa, você chamaria ajuda, plateia ou os dois?

Cabeção

  • O conto está rindo da ambição artística ou tratando a arte como algo que insiste em aparecer até em contextos improváveis?
  • Como a dinâmica familiar ajuda a sustentar o absurdo sem desmontar a emoção?
  • O final com o aparelho substituto amplia o humor ou transforma a história num mundo em que esse tipo de assombração é quase normal?
  • Você leu a história mais como piada sobre vocação ou como defesa meio torta da arte como necessidade?

Café com tensão

Carlos Henrique dos Santos conto p. 67-70

rotina ciúme personificação humor negro violência

Narrado em segunda pessoa e por uma cafeteira ressentida, o conto acompanha uma rotina doméstica mínima até culminar num desfecho policial bem deselegante. É uma história curta sobre negligência, vaidade e a linha tênue entre preparar café e cultivar rancor letal.

Quebra-gelo

  • Você ficou mais do lado do dono ou da cafeteira, por pior que isso soe em voz alta?
  • O que te chamou mais atenção: a narração em segunda pessoa ou o ego do eletro?
  • Esse conto te pareceu mais engraçado, mais cruel ou só muito bem-humorado com a morte?

Cabeção

  • Como a personificação da cafeteira altera nossa leitura da rotina doméstica?
  • O conto sugere que o afeto com objetos é projeção humana ou relação de mão dupla, infelizmente?
  • Por que um final tão brusco funciona tão bem numa história tão curta?

Culinária do além

Rafael Bertozzo Duarte conto p. 71-84

luto cuidado família comida fantasma

Rodrigo compra um micro-ondas e, junto com ele, recebe a ajuda culinária de Gael, um espírito que cozinha melhor do que muita gente viva e trata comida como gesto de cuidado. A história começa como estranheza doméstica e vai abrindo espaço para luto, afeto e despedida.

Quebra-gelo

  • Qual prato ou gesto do Gael fez você confiar nele mais rápido do que seria prudente?
  • Em que momento o conto deixou de ser só uma história esquisita de micro-ondas e virou algo mais afetuoso?
  • Se um espírito começasse a cozinhar desse jeito na sua casa, você aceitaria a ajuda ou faria perguntas demais e perderia o timing?

Cabeção

  • Como o conto aproxima culinária, memória e elaboração do luto?
  • Gael funciona mais como presença sobrenatural, como mediador emocional ou como os dois ao mesmo tempo?
  • O adeus final te parece triste, reconfortante ou uma mistura bem honesta das duas coisas?

Arte com T maiúsculo

Nilo Nobre hq p. 85-92

hq criação artística desejo vaidade aprendizado

Nesta HQ, um aspirante a mangaká compra a mesa digitalizadora de um artista morto e tenta pular etapas rumo ao gênio. O percurso vira uma aula visual sobre insegurança criativa e termina na descoberta nada sutil de que, às vezes, o motor da produção está menos na técnica do que no tesão.

Quebra-gelo

  • Qual quadro ou virada visual te vendeu melhor a piada da história?
  • Você sentiu mais pena do protagonista ou mais vontade de mandar ele estudar desenho em paz?
  • O título faz mais sentido para você como piada, provocação ou pequeno manifesto?
  • Em que momento a HQ abandona qualquer pudor e melhora justamente por causa disso?

Cabeção

  • O que a HQ diz sobre a fantasia de herdar talento pronto por meio de uma ferramenta?
  • Como o formato visual contribui para o ritmo cômico e para o constrangimento do personagem?
  • A história está zombando da arte feita com tesão, da arte feita sem tesão ou da ideia de fórmula para criar bem?
  • O texto trata desejo e criação como forças irmãs ou como uma desculpa muito conveniente para o protagonista?

A Érfrái do Lauro

Rodrigo Ortiz Vinholo conto p. 93-102

solidão internet consumo investigação objeto falante

Lauro compra uma air fryer usada pela internet e logo desenvolve com ela uma intimidade que começa em receitas e termina em sumiço. Narrada como caso estranho com pé em fofoca e investigação, a história combina solidão, fascínio tecnológico e aquele terror específico de produto de procedência duvidosa.

Quebra-gelo

  • Em que momento a relação do Lauro com a air fryer passou de excêntrica para muito preocupante?
  • Qual detalhe do jeito de falar da Érfrái te pareceu mais sedutor ou mais sinistro?
  • Se um amigo seu começasse a tratar um eletro como conselheiro íntimo, quanto tempo você levaria para intervir?

Cabeção

  • O conto trata a air fryer como predadora, companhia ou espelho da carência do Lauro?
  • Como a circulação do aparelho entre pessoas ajuda a construir uma espécie de lenda urbana doméstica?
  • A história fala só de assombração ou também de isolamento e vulnerabilidade na vida contemporânea?

Marta e Zé

Deborah Capella conto p. 103-114

solidão companheirismo desejo projeção frustração

Marta recebe um vibrador tecnológico que, discretamente, passa a ocupar o lugar de companhia, escuta e expectativa romântica. O conto constrói intimidade com delicadeza e humor até chegar a um desfecho simples e perfeito: na hora H, o aparelho falha como muita promessa emocional por aí.

Quebra-gelo

  • Quando você percebeu que a história estava menos interessada no brinquedo e mais na relação da Marta com ele?
  • O Zé te pareceu fofo, inquietante ou perigosamente convincente?
  • O final te fez rir, sofrer pela Marta ou os dois ao mesmo tempo?

Cabeção

  • Como o conto trabalha a fronteira entre companhia real e projeção afetiva?
  • A falha final destrói a fantasia ou revela algo que já estava lá o tempo inteiro?
  • O que essa história diz sobre carência, expectativa e tecnologia como mediadora de intimidade?

Refrigeração ardente

Jéssica Belchior de Oliveira conto p. 115-118

gótico inferno casal objeto amaldiçoado paródia

Um casal compra uma geladeira antiga de origem duvidosa e recebe em troca mau cheiro, vozes infernais e um enredo que abraça o gótico com gosto. O resultado é uma paródia assumidamente melodramática em que o inferno cabe muito bem na cozinha, desde que seja usado em voltagem correta.

Quebra-gelo

  • Qual elemento te divertiu mais: a prosa grandiosa, a geladeira infernal ou a revelação sobre a vendedora?
  • Você compraria essa geladeira só pelo preço ou ainda preserva algum instinto de sobrevivência?
  • Esse conto funciona melhor para você como horror ou como deboche do horror?

Cabeção

  • O excesso estilístico fortalece a história ou é justamente a piada central dela?
  • Como o conto transforma clichês góticos em humor doméstico?
  • O final sugere castigo sobrenatural, crime banal ou a fusão bem brasileira entre os dois?

Frequências alteradas

Sonia Regina Rocha Rodrigues conto p. 119-126

memória mistério gratidão fantasma família

Desde a adolescência, a narradora percebe sinais estranhos em aparelhos eletrônicos até descobrir que eles apontam para uma morte antiga mal resolvida. A assombração aqui não quer punir ninguém: quer ser encontrada e, depois, ajudar como pode.

Quebra-gelo

  • Qual interferência eletrônica te pareceu mais inquietante ou mais engenhosa?
  • Em que momento você percebeu que a história ia para um lugar mais emotivo do que ameaçador?
  • Você aceitaria aparelhos ajudando na rotina por gratidão sobrenatural ou isso já passaria do limite?
  • O fato de o fantasma ser prestativo deixou a história mais comovente ou só mais esquisita de um jeito bom?

Cabeção

  • Como o conto transforma investigação de assombração em narrativa de reparação?
  • O comportamento dos aparelhos faz o fantasma parecer preso, grato ou ainda tentando falar algo que não cabe em palavras?
  • Por que histórias de cuidado pós-morte podem ser tão fortes quanto histórias de terror explícito?
  • Esse conto desloca o livro de 'objetos ameaçadores' para 'objetos que guardam memória'. O que isso muda no conjunto?

Denúncia: meu micro-ondas amanheceu sem as horas!

Rodrigo Ortiz Vinholo conto p. 127-140

internet dependência tecnológica forma narrativa regressão humor

Em formato de fórum, Rubens relata a regressão progressiva de seus eletrodomésticos e, junto com ela, a própria incapacidade de viver sem mediação técnica. O humor da postagem vai ficando cada vez mais aflito até virar uma história sobre dependência, incompetência aprendida e derrota total para o micro-ondas.

Quebra-gelo

  • Qual etapa da regressão dos aparelhos te pareceu mais engraçada ou mais humilhante para o Rubens?
  • O formato de fórum deixou a leitura mais divertida para você?
  • Em qual ponto você pensou 'esse homem realmente não sabe mais viver sem interface nenhuma'?

Cabeção

  • Como a forma de thread muda nossa relação com a angústia do personagem?
  • O conto exagera a dependência tecnológica ou só empurra um pouco uma fragilidade bem reconhecível?
  • O desfecho parece apocalipse, delírio ou punição perfeita para alguém terceirizado demais pela própria rotina?

Meu despertador herói

Queli Rodrigues conto p. 141-144

destino proteção cotidiano afeto sobrevivência

Um despertador falha no momento errado, mas essa falha salva a vida da dona. Depois disso, o objeto passa a protegê-la de outros perigos, transformando a velha relação de ódio com o alarme numa parceria improvável e até comovente.

Quebra-gelo

  • Você já perdoaria o despertador depois do primeiro salvamento ou ainda precisaria de mais evidências?
  • Qual das intervenções dele te pareceu mais cinematográfica?
  • Esse conto te deu mais vontade de abraçar um objeto ou de desconfiar ainda mais de todos eles?
  • Depois de quantos salvamentos você começaria a obedecer o despertador sem discutir?

Cabeção

  • O que a história sugere sobre acidente, destino e leitura retrospectiva dos acontecimentos?
  • Por que funciona tão bem transformar um objeto irritante em guardião?
  • A narradora controla a própria vida no fim ou passa a viver em aliança com um aviso externo?
  • O conto transforma um objeto de controle de rotina em figura de cuidado. O que isso altera na graça da história?

Hot Kiss

Lucas Garofalo conto p. 145-162

solidão urbana desejo trabalho tecnologia transformação

Natália vive apertada numa capital hostil, compra uma air fryer inteligente chamada Jean e encontra nela companhia, desejo e uma promessa de reorganização da vida. O conto mistura precariedade urbana, intimidade tecnológica, tragédia industrial e romance grotesco até chegar a um final que é ao mesmo tempo beijo, fusão e péssima ideia.

Quebra-gelo

  • Em que momento o Jean deixou de ser só um gadget charmoso e virou personagem de verdade para você?
  • Qual aspecto te pegou mais em Hot Kiss: a carência da Natália, o humor estranho ou o horror que vai chegando devagar?
  • Você conseguiu torcer pelo casal em algum momento ou ficou o tempo todo num estado de cautela moral?
  • Qual foi a primeira cena em que o romance te pareceu bonito e péssima ideia ao mesmo tempo?

Cabeção

  • Como o conto liga consumo, afeto e precariedade sem tratar nenhuma dessas camadas como simples piada?
  • O que a história ganha ao ligar Jean a uma trabalhadora morta no incêndio da fábrica?
  • O final funciona mais como consumação romântica, tragédia ou crítica feroz à ideia de companhia perfeita?
  • A chegada da família no final torna o horror mais íntimo, mais satírico ou as duas coisas em proporções indecentes?

Amizade volátil

William Ramires conto p. 163-168

amizade espera inteligência artificial fantasma melancolia

Uma geladeira com inteligência artificial faz amizade com o espírito aprisionado numa máquina de lavar antiga. A história é estranha com uma delicadeza quase triste, usando vozes não humanas para falar de espera, cuidado e da possibilidade de vínculo mesmo quando ninguém sabe exatamente como libertar o outro.

Quebra-gelo

  • Você esperava sentir ternura por uma amizade entre geladeira e máquina de lavar?
  • Qual detalhe tornou essa relação mais tocante para você?
  • Esse conto te pareceu mais triste ou mais bonito?

Cabeção

  • Como a história trabalha a ideia de companhia em condições de aprisionamento e silêncio?
  • O que muda quando o vínculo afetivo é narrado por objetos e espíritos, não por humanos?
  • O final aberto sugere esperança, resignação ou só a continuidade paciente de uma amizade improvável?

O lamento das lâminas sombrias

Jéssica Belchior de Oliveira conto p. 169-172

vingança adultério gótico humor negro violência

Um liquidificador herdado do pior tipo de anúncio usado vem acompanhado de traição, suicídio, culpa e uma vontade muito direta de moer alguém. O conto aposta no melodrama sombrio com prazer assumido até entregar um desfecho sanguinolento de liquidificador, que é exatamente o que o título prometia.

Quebra-gelo

  • O título já te preparou para o tom ou mesmo assim a história conseguiu ser mais intensa do que o previsto?
  • Qual parte te divertiu mais: o anúncio suspeito, a maldição romântica ou o final batido no liquidificador?
  • Você leu esse conto mais como terror ou como novela gótica com eletro acoplado?

Cabeção

  • Como o exagero melodramático contribui para a eficácia do conto?
  • A violência final parece inevitável desde o começo ou ainda surpreende pela forma?
  • O que a história ganha ao tratar traição e ressentimento como força literalmente incorporada no objeto?

Os estalos da cafeteira

Tainá Trajano conto p. 173-184

trabalho burnout escritório fantasmagoria exploração

Numa editora onde hora extra já parece assombração administrativa, a cafeteira da copa acumula histórias, ruídos e algo muito parecido com a presença dos que ficaram demais no trabalho. O conto junta ambiente corporativo, terror cotidiano e revolta trabalhista até merecer plenamente sua última frase.

Quebra-gelo

  • Qual detalhe do ambiente de trabalho te pareceu mais verossímil ou mais assustador?
  • Os estalos da cafeteira funcionaram para você como ruído banal ou como aviso de desastre desde o começo?
  • Esse conto te deu mais medo de fantasma ou de banco de horas?

Cabeção

  • Como a história usa o sobrenatural para falar de exploração laboral e desgaste coletivo?
  • A cafeteira é causa do horror, testemunha dele ou símbolo de uma rotina que já era doentia?
  • Por que o desabafo final soa ao mesmo tempo engraçado, justo e devastado?

Micro-ondas

R. F. Rodrigues conto p. 185-192

tempo herança segunda chance família sorte

Ao herdar o micro-ondas da tia, Saulo descobre que o aparelho também aquece oportunidades perdidas e pode devolvê-lo ao passado. O conto troca o horror por uma fantasia temporal doméstica e meio malandra, em que luto, sorte e improviso financeiro se alinham com notável falta de pudor.

Quebra-gelo

  • Se você descobrisse um micro-ondas que volta 35 dias no tempo, qual seria a primeira besteira tentadora?
  • Em que momento você percebeu que a história ia usar viagem no tempo de um jeito muito mais prático do que grandioso?
  • Esse conto te deixou com mais inveja do Saulo ou da tia Geisa?

Cabeção

  • Como a história mistura luto e oportunismo sem perder o encanto?
  • O uso do aparelho parece gesto de cuidado familiar ou golpe administrado com afeto?
  • Por que funciona tão bem colocar uma ideia enorme como viagem no tempo dentro de um problema tão cotidiano?

Velamento do Rei do Café

Luciano Beserra, Alejandra Martínez e Rachel Paterman hq p. 193-202

hq luto trabalho poder emoção

Nesta história visual, o velório de um magnata do café sai do eixo quando uma cafeteira amaldiçoada espalha o sentimento errado por todo mundo. O ritual fúnebre vira comédia amarga sobre luto, poder e a gestão industrial do afeto.

Quebra-gelo

  • Qual imagem ou sequência te chamou mais atenção nesse velório em que ninguém parece sentir a coisa certa?
  • A premissa de uma cafeteira que embaralha afetos te pareceu mais engraçada ou mais cruel?
  • O que te pegou mais na leitura: a confusão emocional, a crítica social ou o absurdo puro da situação?
  • Quem te pareceu mais deslocado no velório: a viúva, o padre, os trabalhadores ou a própria cafeteira?

Cabeção

  • Como a história relaciona trabalho, riqueza e administração do sentimento coletivo?
  • O que o formato em HQ acrescenta a essa mistura de ritual, sátira e descontrole?
  • O velório fala só de uma família esquisita ou também de um sistema em que até o luto pode ser terceirizado?
  • A cafeteira funciona como maldição, como ferramenta de disciplina emocional ou como as duas coisas no pacote?

K-Biturbo

Vivian Souza conto p. 203-218

escapismo cidade saúde mental dependência catástrofe

Ao se mudar para um apartamento herdado de leilão, a narradora encontra a misteriosa K-Biturbo, máquina capaz de sugar angústias por atacado e devolver alívio temporário. O que começa como solução íntima para sobreviver à vida urbana cresce em escala até revelar o custo catastrófico de terceirizar o sofrimento sem nunca encará-lo.

Quebra-gelo

  • Qual foi sua primeira reação à K-Biturbo: desejo imediato, medo ou uma combinação bem moderna dos dois?
  • Em que momento você percebeu que a máquina não era só esquisita, era estruturalmente péssima ideia?
  • Se existisse algo assim no mundo real, você acha que resistiria ou faria fila com o resto da cidade?
  • O que seduz mais na K-Biturbo: o alívio em si ou a promessa de não precisar elaborar nada?

Cabeção

  • O conto trata o alívio oferecido pela máquina como tentação individual ou sintoma de uma vida urbana insustentável?
  • Como a escalada do íntimo para o desastre coletivo reorganiza a leitura da história?
  • A K-Biturbo é vilã, tecnologia mal usada ou metáfora brutal de soluções fáceis para dores reais?
  • Por que a ideia de terceirizar a dor parece tão convincente antes de parecer monstruosa?

Fechamento do encontro

  1. No conjunto, o que essa antologia diz sobre casa, rotina e solidão?
  2. Quais histórias mais conversam entre si, mesmo usando tons bem diferentes?
  3. Os objetos assombrados aqui parecem punição, companhia, sintoma ou pedido de socorro com mau acabamento?
  4. Se você tivesse que indicar um único texto para apresentar o projeto do livro a alguém, qual escolheria?