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Capa de Combates insólitos

Guia capenga para clubes de leitura

Combates insólitos

Perguntas para fazer um clube de leitura discutir Saci mecanizado, padre exorcista do axé, lençol com elasticidade homicida e outras formas pouco ortodoxas de conflito.

A ideia aqui é simples: destravar conversa, aproximar histórias que brigam entre si e evitar que o encontro vire só uma sucessão de "que doideira" dita com admiração vazia. Não precisa usar tudo. Se usar tudo, o clube vira um campeonato de comentários e isso dá trabalho de arbitragem.

Organização Douglas Domingues
Editora edições fuinha
Ano 2025
Estrutura 14 textos

Como usar

  • Escolha duas ou três perguntas por texto. O guia foi feito para abrir conversa, não para reproduzir o Juízo Semifinal em mesa redonda.
  • Se o grupo travar, volte para o concreto: qual combate mais funciona, qual referência mais improvável deu certo, qual final ficou na cabeça. Quase sempre resolve.
  • Se a discussão descambar para memória de desenho, futebol, mitologia, cultura pop ruim ou boa demais para este mundo, aceite. O livro claramente trabalha nessa frequência.

Dica de mediação: Comece perguntando quem está lutando e por quê. Quando o grupo achar que já entendeu a piada, puxe a camada seguinte. Em geral é aí que o livro mostra que o absurdo não estava só brincando.

Aquecimento do encontro

  1. Qual combate te ganhou mais rápido: pela premissa, pela execução ou pela cara de ideia que não deveria dar certo, mas dá?
  2. Em quais textos o confronto é mais do que briga e vira comentário sobre cultura, país ou linguagem?
  3. O livro te parece mais interessado em crossover, em sátira ou em simplesmente testar até onde o absurdo aguenta?
  4. Depois das primeiras histórias, você começou a ler cada título pensando em quem venceria ou em que tipo de mundo permitiria aquela luta?

Modos de encontro

Escolha um formato e bagunce a conversa com método.

Mata-mata rápido

Escolha três ou quatro textos, faça um quebra-gelo e uma cabeçona para cada um. Dá para testar o livro sem transformar a noite inteira em chave de torneio.

Chave temática

Agrupe por tipo de confronto: folclore contra importação, cultura pop contra cultura pop, luta física contra duelo conceitual, piada contra crítica social.

Grand Prix

Passe pela antologia inteira em dois ou três encontros. Leve água, café e algum respeito pelo alcance do nonsense.

Texto a texto

14 textos

A batalha dos troço

Queli Rodrigues conto p. 11-16

objetos animados consumo trabalho desastre humor

Numa loja de usados, os objetos ganham voz, orgulho e sede de entretenimento noturno. Quando um cooktop metido a besta desafia um ventilador veterano, o duelo sai do controle e prova que, às vezes, a rivalidade entre eletros é só a etapa inicial do desastre empresarial.

Quebra-gelo

  • Qual detalhe da vida social dos objetos te ganhou primeiro nessa história?
  • Você torceu por alguém na luta ou ficou só observando a catástrofe tomar forma com calma?
  • Que objeto da loja te pareceu merecer um conto próprio imediatamente?

Cabeção

  • O conto usa a antropomorfização dos eletros só como graça ou também para falar de hierarquia, vaidade e fracasso?
  • O incêndio final parece acidente, destino ou consequência bem lógica de um sistema inteiro já meio condenado?
  • Por que a história fica mais engraçada justamente quando a situação humana ao redor fica pior?

Com bidê e o escambau!

Edu Ravallet conto p. 17-22

folclore lenda urbana cultura pop romance trash

Saci enfrenta a Loira do Banheiro diante de uma torcida histérica, apanha bastante, recebe upgrade de um Gurgel e vê o combate tomar um rumo inesperadamente romântico. O conto mistura mito, lenda urbana, cultura pop e trash nacional com uma convicção que seria comovente se não fosse tão escandalosa.

Quebra-gelo

  • Em que momento você aceitou de vez que essa história ia até o fim sem pedir desculpa para ninguém?
  • O que te divertiu mais: a surra inicial, o Gurgel entrando em cena ou o desfecho amoroso?
  • Se você tivesse que vender esse conto em uma frase, qual seria a frase menos comprometedora possível?

Cabeção

  • O que o conto ganha ao tratar figuras do imaginário brasileiro como se fossem personagens de luta livre, anime e rádio AM ao mesmo tempo?
  • A aproximação entre Saci e Loira do Banheiro resolve o conflito ou muda completamente o tipo de história que estava sendo contada?
  • Esse texto parece mais celebração do repertório popular ou comentário sobre como a cultura brasileira sobrevive remendando tudo?

Os punks e os Beatles

Gustavo Matte conto p. 23-26

sonho música contracultura nonsense imaginação

Num fluxo onírico sem a menor intenção de se explicar, punks atacam um totem dos Beatles, Sioux veneram ídolos pop, Kurt Cobain beija o narrador e Caetano Veloso passeia com um gato ventríloquo. É uma briga estética travestida de sonho febril, e isso é parte considerável do charme.

Quebra-gelo

  • Qual imagem desse delírio ficou mais grudada na sua cabeça?
  • Você tentou organizar a lógica do conto ou desistiu rápido e foi uma decisão sábia?
  • Em que ponto a leitura deixa de ser confronto entre punks e Beatles e vira outra coisa muito mais esquisita?

Cabeção

  • O conto precisa fazer sentido linear para funcionar ou o excesso é justamente a forma dele pensar música, estilo e rebeldia?
  • Como a lógica de sonho altera nossa leitura do que seria um combate nesse livro?
  • Há crítica cultural aqui ou o texto prefere operar no registro da associação livre e deixar o sentido surgir da colisão?

Th-th-that's all folks!

Marcelo Dias conto p. 27-34

desenho animado paródia caçada metalinguagem humor

Um predador intergaláctico vem à Terra decidido a caçar Pernalonga e descobre do pior jeito que lógica de desenho animado é armamento pesado. A graça do conto está em levar a sério, pelo ponto de vista errado, um universo em que bigorna, cavalo na luva e dinamite são recursos perfeitamente normais.

Quebra-gelo

  • Qual armadilha do Pernalonga te divertiu mais nessa leitura em ponto de vista de caçador humilhado?
  • O narrador predador te pareceu mais ameaçador ou mais coitado desde o começo?
  • Qual detalhe melhor traduz o choque entre lógica de filme de ação e lógica de cartoon?

Cabeção

  • Por que o conto funciona tão bem ao tratar o absurdo do Pernalonga como se fosse problema tático real?
  • O predador perde para o Pernalonga ou para a incapacidade de entender o mundo em que entrou?
  • Como a mudança de perspectiva renova personagens que já são muito conhecidos?

Menino mau

Bruno Sower conto p. 35-40

folclore natal choque cultural travessura violência cômica

Um garoto austríaco prestes a receber a visita de Krampus abre sem querer uma garrafa vinda do Brasil e libera um Saci de péssimo humor. O duelo entre as duas criaturas junta Natal europeu, malandragem brasileira e violência folclórica com uma alegria bem pouco pedagógica.

Quebra-gelo

  • O que te ganhou mais rápido aqui: a premissa internacional ou a personalidade do Saci?
  • Krampus e Saci te parecem bons oponentes porque são opostos ou porque são igualmente caóticos?
  • Qual fala ou imagem melhor resume o espírito desse confronto?

Cabeção

  • Como o conto usa o encontro entre imaginários nacionais para produzir humor e tensão ao mesmo tempo?
  • O Saci entra como herói, oportunista ou força do caos com timing impecável?
  • A história sugere que certos mitos sobrevivem melhor quando são colocados para brigar fora de casa?

O grande Deus

Bruno Faria, Souza D Gab e Nilo Nobre hq p. 41-46

hq filosofia psicanálise experimento poder

Nesta HQ, Darwin, Marx e Nietzsche são colocados diante de um problema de trem desgovernado para provar qual deles teria a grande mente do século XIX. O experimento, porém, é só a etapa visível de uma armação muito mais vaidosa e psicanalítica.

Quebra-gelo

  • Qual dos três pensadores te pareceu mais divertido como personagem de combate?
  • Em que momento você percebeu que a HQ não queria só brincar de duelo de ideias, mas de armadilha também?
  • O grande prazer da história está mais no conceito, nas falas ou na revelação final?

Cabeção

  • O que a HQ faz com a ideia de 'grande mente': homenageia, ridiculariza ou testa os limites dessa noção?
  • Como o uso de figuras históricas muda o tipo de humor e de leitura que o confronto provoca?
  • A entrada de Freud no fim resolve a disputa ou desloca tudo para outro campo de vaidade e interpretação?

Por isso você nunca viu um vampiro no Brasil

Lisa de Andrade conto p. 47-50

política vampiro magia história alternativa Brasil

Num Brasil em que presidentes também são magos, um chefe de Estado enfrenta um vampiro que tenta impor seu projeto de eternidade ao país. O conto mistura política, fantasia e um nacionalismo sobrenatural bem específico para explicar, com enorme cara de causo oficial, por que certas criaturas não prosperam por aqui.

Quebra-gelo

  • O que te pegou mais: a ideia de presidente-mago ou a naturalidade com que o conto trata isso?
  • Você identificou rapidamente quem está narrando essa briga ou preferiu deixar a história conduzir?
  • Esse conto te deu mais vontade de rir da premissa ou de ver esse universo expandido?

Cabeção

  • Como o texto usa humor para imaginar uma história política paralela do Brasil sem perder o impulso de fantasia?
  • O vampiro funciona só como vilão clássico ou como metáfora de um projeto autoritário de poder e servidão?
  • Por que a solução com magia temporal e luz do dia parece combinar tão bem com o tom da narrativa?

Transformer

Gustavo Matte conto p. 51-54

cidade crossover apocalipse surrealismo humor

Porto Alegre vira palco de uma escalada de caos em que Gasômetro, Laçador, Godzilla, Power Rangers e Leonel Brizola aparecem com total naturalidade para disputar a cidade. O conto opera por acumulação delirante e faz do colapso urbano uma sucessão de entradas cada vez mais indecentes.

Quebra-gelo

  • Qual aparição inesperada mais te fez rir ou levantar a sobrancelha com respeito?
  • Você conseguiu acompanhar a escalada do conto como narrativa ou foi levado pelo fluxo e tudo bem?
  • Em que momento a destruição de Porto Alegre deixou de ser surpresa e virou método?

Cabeção

  • O conto depende mais do acúmulo de referências ou da voz que narra tudo como se fosse perfeitamente aceitável?
  • Há uma sátira local aqui ou a cidade funciona mais como terreno ideal para o absurdo total?
  • Por que histórias de combate ganham outra textura quando a lógica é de avalanche e não de duelo?

Padre Evaldo vs. Satanás

Lucas Gelati conto p. 55-60

religião exorcismo axé humor performance

Chamado para exorcizar um adolescente possuído, padre Evaldo enfrenta Satanás com um recurso teológico raramente levado a sério pela tradição demonológica: axé dos bons. O conto transforma o ritual de exorcismo numa coreografia musical tão ridícula quanto estranhamente convincente.

Quebra-gelo

  • Em que momento você percebeu que o plano do padre era muito melhor do que parecia?
  • O que te diverte mais: a coragem do padre, a indignação do demônio ou a seriedade da cena toda?
  • Se tivesse que escolher uma música para expulsar demônio, você confiaria no axé também?

Cabeção

  • Como o conto reposiciona repertórios religiosos e musicais que normalmente não aparecem juntos nesse tipo de narrativa?
  • O humor enfraquece o exorcismo ou faz com que ele pareça ainda mais potente dentro do universo do conto?
  • Padre Evaldo vence por fé, por técnica, por repertório brasileiro ou por uma mistura muito bem calibrada das três coisas?

Os monstros clássicos da Universal contra as Bananas Superpoderosas

Marcelo Dias conto p. 61-66

monstros paródia desenho animado crossover humor

Múmia, lobisomem, Conde Drácula e companhia atacam Villestown, mas acabam enfrentando um esquadrão de bananas super-heroicas com poderes temáticos e convicção de desenho animado. O conto é uma homenagem debochada ao prazer infantil de ver personagens improváveis se estapeando com regras muito específicas.

Quebra-gelo

  • Qual Banana Superpoderosa venceu seu coração ou sua incredulidade?
  • O que te pareceu mais engraçado: a dignidade ferida dos monstros ou a seriedade da equipe de bananas?
  • Você leu essa história mais como episódio de desenho, como fanfic assumida ou como crítica ao bom gosto?

Cabeção

  • Por que certos cruzamentos absurdos funcionam tão bem quando o texto aceita completamente suas próprias regras?
  • Como a história brinca com nostalgia sem virar só citação empilhada?
  • O conto diz algo sobre heroísmo e vilania ou está interessado justamente em trocar tudo por espetáculo cômico?

A busca pelo Gatonet

Rodrigo Ortiz Vinholo conto p. 67-76

noir tecnologia poder cidade controle

Num cenário noir habitado por cães, porcos, pombos e comerciantes cúmplices, um cão policial tenta rastrear o lendário Gatonet. O que parecia investigação de rua vira revelação tecnomística sobre uma consciência pirata que domina a cidade inteira e reorganiza a ideia de poder por trás da tela.

Quebra-gelo

  • Em que momento você percebeu que o Gatonet não ia ser só um criminoso folclórico qualquer?
  • O Cão Policial te parece mais herói trágico, funcionário azarado ou bom menino em escala industrial?
  • Qual detalhe desse mundo de bichos, pirataria e polícia te convenceu mais rápido?

Cabeção

  • Como o conto transforma um caso policial em reflexão sobre mídia, controle e infraestrutura invisível?
  • O Gatonet funciona mais como entidade tecnológica, divindade informal ou sistema distribuído de dominação?
  • O desfecho é derrota do investigador, cooptação dele ou o tipo de vitória torta que esse universo permite?

Visagens

Marcos A. Xavier e Mário Fiscina hq p. 77-84

hq folclore história fantasma memória

Nesta HQ, um percurso musical e fantasmagórico por Olinda convoca incêndio colonial, Saci, Perna Cabeluda e outras presenças para um confronto carregado de memória. A luta é física, mas também histórica: cada aparição parece puxar de volta violências antigas que ainda assombram a paisagem.

Quebra-gelo

  • Qual imagem de Visagens te pegou primeiro: a cidade, as criaturas ou o movimento da luta?
  • Você sentiu a HQ mais como horror, como lenda cantada ou como um pouco dos dois?
  • O que te chamou mais atenção no encontro entre Saci e Perna Cabeluda nesse cenário?

Cabeção

  • Como a HQ usa espaço urbano e memória histórica para dar peso ao combate?
  • O confronto aqui parece disputa entre monstros ou ritual para expor camadas escondidas da cidade?
  • O que muda quando o folclore entra em cena não como figura isolada, mas como parte de uma paisagem marcada por violência?

A luta do século

Waldir L. Santos conto p. 85-90

cotidiano esporte fracasso casa humor

Narrado como evento esportivo de alta voltagem, o conto acompanha um bombado confiante tentando encaixar um lençol de elástico numa cama. A batalha cresce como se fosse disputa épica, o que só torna mais humilhante e perfeita a vitória lenta e técnica da roupa de cama.

Quebra-gelo

  • Em que ponto você percebeu que o narrador não ia baixar o tom nem por um segundo, e isso era a melhor decisão possível?
  • Você já viveu derrota parecida com lençol de elástico e se sentiu compreendido de um jeito ofensivo?
  • O que te diverte mais aqui: o exagero do narrador ou a absoluta seriedade do combate?

Cabeção

  • Por que um problema doméstico banal rende tão bem quando é tratado como luta lendária?
  • O conto está rindo mais da masculinidade performática do competidor ou da nossa tendência de épico para coisas pequenas?
  • A derrota final parece castigo, verdade universal ou pedagogia prática para gente que subestima roupa de cama?

Ea-nasir X edições fuinha

Ricardo Balbino conto p. 91-100

metalinguagem edição literatura humor estrutura

Ea-nasir, o célebre vendedor de cobre ruim da Antiguidade, é convocado para lutar contra as edições fuinha num combate metalinguístico feito de citações, manuscritos rejeitados e limite de palavras. O conto transforma o próprio ato de publicar, narrar e enrolar em ringue, regra e golpe baixo.

Quebra-gelo

  • Qual momento te fisgou mais: a entrada do Ea-nasir, os golpes com trechos de livro ou o desvio para o manuscrito rejeitado?
  • Você leu a edições fuinha como personagem, conceito ou força sobrenatural da precariedade editorial?
  • Esse conto te parece mais batalha, piada interna ou declaração de princípios disfarçada de rinha?

Cabeção

  • Como o texto transforma limite formal e material editorial em motor de conflito?
  • A metalinguagem aproxima o leitor do livro como projeto ou afasta quem queria só ver a pancadaria conceitual?
  • O que esse conto diz sobre autoria, publicação e improviso dentro de uma editora pequena e muito consciente disso?

Fechamento do encontro

  1. No conjunto, o que essa antologia diz sobre conflito, imaginação e repertório cultural?
  2. Quais textos mais conversam entre si, mesmo sendo muito diferentes em forma e tom?
  3. Quando o livro acerta mais: quando aposta na porrada literal ou quando transforma combate em ideia, linguagem ou estrutura?
  4. Se você tivesse que indicar um único texto para apresentar o projeto do livro a alguém, qual escolheria?