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Guia capenga de leitura

A mesma merda de sempre

Perguntas para pensar ou conversar sobre comida zumbi, direitos dos mortos-vivos, oportunismo político e a velha vocação humana para transformar tudo em mercado ou massacre.

O melhor ponto de partida é aceitar a comida zumbi como normalidade local e observar o que essa normalidade expõe. A graça está menos no morto-vivo em si e mais no fato de que quase todo mundo já encontrou um jeito prático, ideológico ou lucrativo de conviver com ele. Dá para seguir sozinho pela escalada da sátira ou comparar argumentos com outras pessoas que ainda estejam oficialmente vivas.

Autor Marcelo Luiz Dias

edições fuinha · 2026 · 5 blocos · ISBN impresso 978-65-84058-10-1

Capa de A mesma merda de sempre em preto e branco

Um cardápio, dois jeitos de perder o apetite

Por conta própria

Leia o conto inteiro e marque o momento em que cada absurdo começa a soar plausível. Depois escolha o argumento da mesa que mais te incomodou por quase parecer defensável.

Com outras pessoas

Cada pessoa escolhe uma fala, uma regra ou uma cena que normaliza o horror. Comparem as escolhas antes que a conversa vire comissão parlamentar dos mortos-vivos.

Como usar

  • Escolha duas ou três perguntas por bloco. O conto é curto e cresce por acumulação, não por excesso de aparato interpretativo.
  • Se você começar a discutir zumbis como categoria jurídica, alimentar ou trabalhista, ótimo. O texto claramente quer esse tipo de degradação analítica.
  • Se aparecer riso nervoso diante do cardápio, da retórica política ou da frase 'pelos vivos', melhor ainda. É um conto que trabalha nessa frequência.

Se der branco: Se der branco, volte para a mesa do restaurante. O conto se organiza muito bem a partir dali: hábitos de consumo, linguagem, dissenso familiar, mídia, polarização e explosão final. É uma sátira que vai alargando o enquadramento sem perder o foco.

Antes de entrar no assunto

  1. O conto te ganhou mais rápido pela premissa da comida zumbi ou pelo jeito casual com que todo mundo trata isso?
  2. A mesa da família te parece mais engraçada, mais deprimente ou mais realista do que deveria?
  3. Qual elemento da construção do mundo te fisgou primeiro: o cardápio, a identidade civil, o debate moral ou a adaptação econômica dos zumbis?
  4. Em que ponto você percebeu que a história não era só piada de gore, mas sátira de estrutura social mesmo?

Três maneiras de servir o conto

Do cardápio ao ringue

Passe pelo conto inteiro em três movimentos: restaurante, debate ideológico e colapso público. A normalidade piora com método.

Autópsia da sátira

Concentre a leitura em consumo, trabalho, desumanização e linguagem política. É o caminho para pegar o absurdo e encontrar seu esqueleto ainda empregado.

Repulsante completo

Use junto com os outros títulos da Coleção Repulsante para comparar estratégias de nojo, humor e crueldade social.

Depois de tudo

  1. No fim, o título te parece confirmar mais o quê: que nada muda, que tudo piora ou que a novidade só muda de embalagem?
  2. O conto funciona melhor como sátira política, humor escatológico ou ficção especulativa curta?
  3. Que papel os zumbis cumprem aqui: minoria explorada, mercadoria, ameaça projetada ou desculpa para o pior do humano aparecer?
  4. Se você tivesse que resumir o conto em uma frase para outra pessoa, puxaria mais para a graça ou para o estrago?

01 / 05

Família no Zumbistrô

Marcelo Luiz Dias / bloco / p. 5-6

A abertura instala o mundo do conto com precisão: uma família almoça num restaurante especializado em carne zumbina e conversa sobre isso como quem discute preferência alimentar qualquer. O deslocamento funciona porque a normalização é total e já vem carregada de hierarquia moral e irritação doméstica.

Palavras suspeitas: família / restaurante / zumbis / normalização

Para começar sem cerimônia

  1. O que te pegou primeiro: a existência do restaurante ou a naturalidade da conversa em volta dele?
  2. Quem da mesa te parece mais revelador do mundo do conto logo de saída?
  3. A premissa te parece mais engraçada pela ideia em si ou pelo detalhe cotidiano com que ela é tratada?

Para pensar além da conta

  1. Como o conto usa a conversa familiar para expor conflitos éticos e políticos sem precisar de grande explicação inicial?
  2. O restaurante funciona mais como cenário cômico ou como síntese perfeita da sociedade inventada?
  3. Por que a banalidade da situação torna tudo mais incômodo?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

02 / 05

Cardápio e desumanização

Marcelo Luiz Dias / bloco / p. 7-10

O cardápio do Zumbistrô transforma cadáver reanimado em experiência gourmet e mostra como a linguagem resolve boa parte do horror quando há mercado envolvido. A comicidade do menu anda junto com uma violência bem organizada: cortar, nomear e servir fazem o impensável parecer sofisticado.

Palavras suspeitas: consumo / linguagem / mercado / desumanização

Para começar sem cerimônia

  1. Qual item do cardápio te pareceu mais eficiente na mistura de nojo e graça?
  2. O humor aqui vem mais dos trocadilhos ou da tranquilidade com que tudo é apresentado?
  3. Se esse cardápio aparecesse num livro maior, ele já sustentaria um mundo inteiro?

Para pensar além da conta

  1. O que a sofisticação do cardápio diz sobre a capacidade de o mercado absorver qualquer barbaridade?
  2. Como o nome dos pratos participa do processo de tornar o inaceitável palatável?
  3. Esse bloco satiriza gourmetização, carnivorismo, capitalismo ou tudo isso ao mesmo tempo?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

03 / 05

Direitos dos zumbis e hipocrisia viva

Marcelo Luiz Dias / bloco / p. 10-16

A discussão de mesa vai escalando para trabalho, dignidade, sexualização, registro civil e uso econômico dos zumbis. Cada fala revela um modo diferente de justificar exploração, medo ou oportunismo, deixando claro que a inteligência do conto está em fazer o absurdo servir como espelho muito pouco lisonjeiro do presente.

Palavras suspeitas: direitos / trabalho / hipocrisia / exploração

Para começar sem cerimônia

  1. Quem da família te parece mais coerente, mesmo estando num mundo obviamente comprometido?
  2. Qual argumento em mesa te parece mais perturbador justamente por soar plausível demais?
  3. A conversa sobre pornografia, trabalho e identidade amplia o mundo do conto ou só mostra até onde o problema já foi?

Para pensar além da conta

  1. Como o conto distribui a crítica social entre falas banais, piadas e pequenas racionalizações?
  2. Os zumbis aparecem aqui como sujeitos possíveis ou apenas como superfície de projeção humana?
  3. O que a normalização de sua exploração revela sobre trabalho e valor em termos mais amplos?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

04 / 05

Manifestação, mídia e 'pelos vivos'

Marcelo Luiz Dias / bloco / p. 16-21

Quando a televisão entra, o conto amplia sua escala e transforma a questão zumbi em espetáculo político. Protesto pacífico, reação paranoica, siglas ridículas e terrorismo travestido de dever moral aparecem como evolução lógica de um mundo que já tinha naturalizado o consumo dos mortos-vivos.

Palavras suspeitas: mídia / manifestação / paranoia / violência política

Para começar sem cerimônia

  1. Em que momento essa virada televisiva te pareceu inevitável dentro do conto?
  2. O que te diverte mais: as siglas, a retórica ou o fato de tudo piorar com perfeita convicção?
  3. A mídia aqui registra o caos ou participa diretamente da sua fabricação?

Para pensar além da conta

  1. Como o conto liga espetáculo televisivo e radicalização política sem transição brusca demais?
  2. O slogan 'pelos vivos' funciona mais como sátira de fascismo, pânico moral ou lógica de guerra permanente?
  3. O que a explosão faz com a aparente estabilidade do mundo narrado até ali?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

05 / 05

O restaurante vira ringue

Marcelo Luiz Dias / bloco / p. 21-24

A reação dos clientes ao noticiário mostra que a mesa era miniatura do mundo desde o começo. O dissenso ideológico explode rápido, a brutalidade sai do discurso e o conto confirma a tese do título: o contexto muda, o objeto muda, mas a espécie continua muito empenhada em reproduzir o pior de si.

Palavras suspeitas: polarização / violência / espelho social / sátira

Para começar sem cerimônia

  1. O final te parece mais engraçado, mais deprimente ou mais previsível no pior sentido?
  2. Você sentiu que o restaurante já estava pronto para virar conflito desde a primeira página?
  3. O título fecha o conto com cinismo, precisão ou ambas as coisas?

Para pensar além da conta

  1. Por que a briga final parece consequência inevitável e não reviravolta gratuita?
  2. Como o conto transforma os zumbis em catalisador para mostrar que os vivos não precisavam de muita ajuda para se destruir?
  3. O que sobra de específico no mundo zumbi depois que percebemos que o foco sempre foi a repetição da mesma lógica humana?

Alguma coisa que pareceu importante na hora