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Guia capenga de leitura

Uma fuinha sobrenatural se instalou no meu cérebro

Perguntas para pensar ou conversar sobre bacon na páscoa, cães quânticos, batatas amigas, neuroses domésticas e outros pequenos acidentes de pensamento.

O livro deliberadamente não quer parecer arrumado. Contos, poemas e micro-ensaios giram em torno de inadequação, corpo, ansiedade e um impulso muito brasileiro de rir da própria ruína antes que ela ria de volta. O guia preserva essa mistura e evita exigir a mesma solenidade de um cão quântico, uma batata amiga e um trauma doméstico.

Autor Douglas Domingues

Ed. do Autor · 2022 · 16 textos · ISBN impresso 978-65-00-44319-6 · ISBN e-book 978-65-00-15025-4

Capa de Uma fuinha sobrenatural se instalou no meu cérebro em preto e branco

Uma cabeça, dois jeitos de aceitar a invasão

Por conta própria

Misture um texto longo com um ou dois curtos e anote o que ficou engraçado antes de decidir o que significa. A voz aparece melhor quando a compostura não participa.

Com outras pessoas

Cada pessoa escolhe uma dupla improvável de textos e explica o parentesco. Comparem humilhações, ansiedades e acidentes de pensamento sem organizar demais a cabeça alheia.

Como usar

  • Misture um texto mais longo com um ou dois curtinhos. O contraste ajuda a perceber como o humor do livro muda de escala sem mudar de cabeça.
  • Se a leitura travar, pergunte o que exatamente ficou engraçado ou desconfortável. Em geral, esse livro mora bem nesse intervalo meio suspeito.
  • Se a conversa descambar para trauma bobo, vergonha antiga, comida estranha ou paranoia de objeto doméstico, considere um acerto metodológico.

Se der branco: Nos textos curtos, não force profundidade de saída. Descubra primeiro a graça, o desvio ou a mini-humilhação; depois veja o que isso revela sobre a voz do livro. Se tudo ficar solene demais, recue um passo e desconfie da própria compostura.

Antes de entrar no assunto

  1. Qual texto te ensinou mais rápido como este livro pensa: pela piada, pela imagem absurda ou pela pequena vergonha que fica depois?
  2. Em quais momentos o humor parece só brincadeira e em quais ele começa a encostar numa tristeza ou inadequação mais funda?
  3. A mistura de conto, poesia e micro-ensaio te deu sensação de bagunça deliberada, caderno de obsessões ou retrato coerente de uma cabeça específica?
  4. Quando o livro muda de forma, muda também a sua maneira de ler ou só muda a velocidade do estrago?

Percursos pelo cérebro ocupado

Contos primeiro

Passe pela parte 1 numa primeira rodada e use a parte 2 como sobremesa ou anticlímax planejado. Funciona para quem prefere narrativas mais longas antes do picado.

Picado fino

Misture um conto, uma poesia e um micro-ensaio por rodada. Dá para sentir a voz do autor sem exigir fôlego de maratona.

Faixa completa

Leia o livro inteiro em duas etapas: uma para os contos, outra para os textos curtos. Leve água e alguma disposição para o autodeboche.

Depois de tudo

  1. No conjunto, o que este livro diz sobre solidão, corpo e a tentativa de administrar a própria cabeça sem manual?
  2. Quais textos formam uma espécie de família secreta aqui, mesmo sem parecer parentes à primeira vista?
  3. Quando a autodepreciação passa de graça a método de pensamento, o que exatamente muda na leitura?
  4. Se você fosse apresentar o livro com uma dupla improvável de textos, quais escolheria?

O que tem aqui

  1. Na páscoa p. 11-16
  2. Martelo p. 17-20
  3. O cachorro de Pavlov e o gato de Schrödinger p. 21-32
  4. Vai pro inferno! p. 33-36
  5. Fuinha sobrenatural p. 37-40
  6. Batata p. 41-42
  7. Deus cria o sistema digestivo p. 43-44
  8. Há males que vem para o bem p. 45-48
  9. Não deu p. 49-50
  10. Par-ou-ímpar de rua p. 53-54
  11. O homem que não sabia perder p. 55-55
  12. Não se vá p. 56-56
  13. Mosca na parede p. 57-59
  14. Gos-to p. 60-60
  15. Sofrimento adolescente p. 61-61
  16. Sobre os antigos conselhos da vovó p. 62-62

01 / 16

Na páscoa

Douglas Domingues / conto / p. 11-16

Inconformado com a existência da páscoa, o narrador decide insultar a data e punir o próprio coração com um ritual doméstico feito de bacon, chocolate, nudez e colapso emocional. O conto vai escalando sua lógica idiota com tanta convicção que a ressaca moral acaba parecendo inevitável e quase nobre.

Palavras suspeitas: feriado / autossabotagem / corpo / solidão / humor

Para começar sem cerimônia

  1. Em que momento você percebeu que o narrador não ia mais voltar para um nível aceitável de normalidade?
  2. Qual imagem ficou mais forte para você: o bacon com chocolate, o travesseiro recheado ou a faxina final?
  3. O que nessa performance te parece mais voltado contra a páscoa e o que te parece claramente voltado contra ele mesmo?

Para pensar além da conta

  1. Como o conto mistura autodepreciação e ritual pessoal até tornar a vergonha uma forma de narrativa?
  2. A limpeza e o telefonema final mudam sua leitura do texto para algo mais triste, mais terno ou só mais absurdo?
  3. O que essa história diz sobre solidão quando ninguém está olhando e o sujeito decide virar seu próprio público?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

02 / 16

Martelo

Douglas Domingues / conto / p. 17-20

Desde criança, o narrador teme menos o martelo em si do que a possibilidade de um surto incontrolável acontecer justamente quando ele estiver por perto. Agora, sozinho numa kitnet e dono do próprio martelo, ele revisita o pavor de liberdade total com uma seriedade muito pouco tranquilizadora.

Palavras suspeitas: paranoia / controle / adultez / violência imaginada / ansiedade

Para começar sem cerimônia

  1. Qual medo infantil desse texto te pareceu mais engraçado ou mais perturbador?
  2. Você leu o martelo como ameaça real ou como desculpa perfeita para uma cabeça que nunca desliga?
  3. O final te deixou esperando uma explosão ou admirando a forma como o conto para antes dela?

Para pensar além da conta

  1. Como o conto transforma um objeto banal em condensador de paranoia e auto-vigilância?
  2. Há alguma diferença entre ter medo de fazer algo horrível e desejar secretamente testar um limite?
  3. O que a mudança para morar sozinho aciona no texto: liberdade, responsabilidade ou pânico sem testemunha?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

03 / 16

O cachorro de Pavlov e o gato de Schrödinger

Douglas Domingues / conto / p. 21-32

Narrado por um cachorro russo que já serviu a Pavlov e depois cai na casa de Schrödinger, o conto mistura ciência pop, filosofia improvisada e ressentimento animal. Entre reflexões sobre morte, fetiche e condicionamento, a história transforma o experimento do gato numa tragédia canina muito consciente de si.

Palavras suspeitas: ciência / morte / animais / filosofia / paródia

Para começar sem cerimônia

  1. O que te fisgou mais nesse conto: o narrador cachorro, o choque entre Pavlov e Schrödinger ou o tamanho da cara de pau filosófica?
  2. Em que momento a história deixou de ser piada científica e virou algo mais existencial para você?
  3. Quem sai pior na história: o russo, o austríaco ou a espécie humana em geral?

Para pensar além da conta

  1. O que o conto ganha ao usar um cachorro como narrador para pensar condicionamento, morte e consciência?
  2. A filosofia que aparece aqui é só ferramenta de humor ou também produz uma meditação real sobre viver e morrer?
  3. Por que o desfecho funciona ao mesmo tempo como punchline cruel e comentário sobre quem pode ou não ocupar certas teorias?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

04 / 16

Vai pro inferno!

Douglas Domingues / conto / p. 33-36

Depois de morrer com um tiro na cabeça, o narrador vai parar num programa de auditório comandado pelo Diabo e precisa conquistar sua salvação numa lógica de gincana televisiva. A solução final é tão idiota quanto brilhante, o que combina perfeitamente com um além organizado por apresentador vaidoso.

Palavras suspeitas: inferno / televisão / esperteza / morte / linguagem

Para começar sem cerimônia

  1. O que te divertiu mais aqui: o cenário de auditório, o Diabo animador ou o golpe final do protagonista?
  2. Se você chegasse nesse programa, escolheria a prova ou a pergunta de ouro?
  3. A observação final sobre higiene bucal piora ou melhora a história de um jeito moralmente discutível?

Para pensar além da conta

  1. Como o conto usa a lógica televisiva para ridicularizar ideias solenes sobre julgamento e pós-vida?
  2. O protagonista vence por inteligência, por desespero ou por atenção miúda ao ridículo do outro?
  3. Por que a insistência em dizer que não é metáfora acaba deixando o texto ainda mais engraçado?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

05 / 16

Fuinha sobrenatural

Douglas Domingues / conto / p. 37-40

Uma fuinha com má-formação congênita vira centro involuntário de um culto na Mesopotâmia, ascende a divindade menor e, séculos depois, pede abrigo numa parcela discreta do cérebro do narrador. O conto faz história religiosa, banalidade urbana e convivência mental se encontrarem sem o menor esforço aparente.

Palavras suspeitas: religião / banalidade / possessão leve / história longa / humor

Para começar sem cerimônia

  1. Em qual parte da trajetória da fuinha você mais riu: no culto, na ascensão divina ou no comentário sobre o churrasquinho do metrô?
  2. A fuinha te parece mais entidade, mais bicho ou mais companhia de elevador cósmica?
  3. Você toparia hospedar uma divindade assim no cérebro se o combinado fosse realmente baixo impacto?

Para pensar além da conta

  1. O que o conto faz com a ideia de religião quando ela nasce de improviso, oportunismo e crença suficiente para dar problema?
  2. Por que o salto da Mesopotâmia para o metrô de São Paulo funciona tão bem nessa história?
  3. A relação entre narrador e fuinha muda alguma coisa fundamental nele ou o conto aposta justamente na banalidade dessa convivência?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

06 / 16

Batata

Douglas Domingues / conto / p. 41-42

O narrador poupa uma batata do destino de virar fritura, leva a raiz para passear, conversa telepaticamente com ela e, quando percebe que ela começou a brotar, decide fritá-la com todo o respeito que um gesto desses comporta. É um texto curto sobre projeção afetiva, inadequação social e a linha fina entre carinho e consumo.

Palavras suspeitas: solidão / projeção / comida / culpa / afeto absurdo

Para começar sem cerimônia

  1. Em que momento você deixou de pensar 'isso é só uma piada com batata' e começou a levar a amizade a sério?
  2. Qual detalhe deixa o texto mais triste: o passeio, a fritura cara ou a ressaca emocional depois?
  3. Você acha que a batata amiga melhorou ou piorou a vida do narrador enquanto durou?

Para pensar além da conta

  1. O conto usa a batata como substituto afetivo, metáfora da inadequação social ou simplesmente como objeto perfeito para o absurdo?
  2. Fritar a batata é traição, rito de passagem ou uma forma muito torta de intimidade?
  3. Por que a última imagem da gaveta da geladeira pesa tanto num texto tão curto?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

07 / 16

Deus cria o sistema digestivo

Douglas Domingues / conto / p. 43-44

Num laboratório do Éden, Deus e Adão improvisam o sistema digestivo a partir do problema muito concreto de comer repolho e não saber para onde aquilo deve ir. O texto trata a criação do corpo humano como gambiarra administrativa, o que é péssimo para a dignidade divina e ótimo para a leitura.

Palavras suspeitas: criação / corpo / escatologia / religião / improviso

Para começar sem cerimônia

  1. Qual ajuste anatômico improvisado te fez rir mais?
  2. Você saiu do texto com mais pena de Deus ou de Adão?
  3. A imagem do laboratório melhora a paródia bíblica ou só a torna mais indecente?

Para pensar além da conta

  1. O que o conto ganha ao tratar a criação como processo de tentativa e erro, e não como perfeição instantânea?
  2. Por que humor corporal tão elementar ainda funciona tão bem quando o texto sabe exatamente o que está fazendo?
  3. Há alguma crítica implícita à ideia de ordem divina ou o prazer do texto está mesmo no rebaixamento cômico?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

08 / 16

Há males que vem para o bem

Douglas Domingues / conto / p. 45-48

Criado no ambiente hipocondríaco da avó, o narrador confunde sintomas físicos causados por doença de Chagas com a descoberta do amor adolescente. O conto brinca com corpos mal lidos, romance tímido e saberes familiares até encontrar uma saída estranhamente doce para tanta paranoia.

Palavras suspeitas: adolescência / doença / amor / família / hipocondria

Para começar sem cerimônia

  1. Em que momento você suspeitou que a história estava te levando para um diagnóstico diferente do esperado?
  2. A avó ou a mãe te pareceram personagens mais fortes nesse circuito de doenças e sentimentos?
  3. Você comprou a confusão entre paixão e doença de cara ou só no susto?

Para pensar além da conta

  1. Como o conto usa a linguagem médica para falar de paixão adolescente sem ridicularizar totalmente a experiência?
  2. A hipocondria do narrador aparece mais como piada, herança familiar ou forma real de tentar dar sentido ao corpo?
  3. Por que o final consegue ser ao mesmo tempo romântico e um pouco humilhante, no bom sentido?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

09 / 16

Não deu

Douglas Domingues / micro-ensaio / p. 49-50

Numa sequência de tentativas frustradas, o texto empilha desejos, impulsos e projetos que falham antes mesmo de virar experiência. É um inventário rápido do desencontro entre vontade e mundo, escrito com a serenidade de quem já se acostumou a perder timing.

Palavras suspeitas: fracasso / linguagem / frustração / sintese / autodepreciação

Para começar sem cerimônia

  1. Qual tentativa frustrada te pareceu mais dolorosamente específica?
  2. Você leu o texto como desabafo cansado, currículo invertido ou inventário de timing ruim?
  3. A repetição do não deu te bate como resignação, ritmo ou método?
  4. Tem alguma entrada da lista em que a graça some e fica só um pequeno aperto?

Para pensar além da conta

  1. O que a forma em lista faz com a sensação de fracasso: organiza, banaliza ou transforma tudo em estilo?
  2. Sem narrativa tradicional, o que ainda constrói personagem aqui: seleção, ritmo ou tom?
  3. O texto fala de impotência individual ou de um jeito de existir sempre um segundo atrasado em relação ao desejo?
  4. Existe algum alívio em nomear os fiascos com tanta objetividade ou isso só esfria o estrago?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

10 / 16

Par-ou-ímpar de rua

Douglas Domingues / poesia / p. 53-54

Um eu lírico orgulhosíssimo se apresenta como campeão mundial de par-ou-ímpar de rua, diferencia sua modalidade da versão de salão e sonha com desafios ainda maiores. O poema extrai épico, vaidade e carreira de uma competição tão ridícula que a ambição do personagem vira grandeza de bolso.

Palavras suspeitas: competição / ambição / voz / absurdo / poesia

Para começar sem cerimônia

  1. Qual detalhe da carreira desse campeão te pareceu mais documentalmente ridículo?
  2. A distinção entre par-ou-ímpar de rua e de salão te convenceu por um segundo ou você só admirou a audácia técnica?
  3. Esse personagem te parece atleta, charlatão ou alguém que precisava muito inventar uma modalidade?
  4. Qual palavra do poema mais ajuda a vender a seriedade dessa bobagem?

Para pensar além da conta

  1. O que o poema diz sobre prestígio quando ele pode ser construído em torno da coisa mais miúda possível?
  2. Como repetição, variação e convicção sem lastro constroem essa voz tão rápido?
  3. O humor está no jogo ou na necessidade humana de transformar qualquer bobagem em identidade?
  4. Há ternura nesse personagem ou o poema prefere deixá-lo sozinho na própria grandiloquência?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

11 / 16

O homem que não sabia perder

Douglas Domingues / poesia / p. 55-55

Em poucas linhas, o poema apresenta um sujeito incapaz de perder, ganhar ou empatar. O efeito é de piada mínima com ambição máxima, como se a incompetência competitiva tivesse finalmente encontrado sua forma perfeita.

Palavras suspeitas: competição / fracasso / síntese / poesia / humor

Para começar sem cerimônia

  1. Qual resultado impossível te divertiu mais: perder mal, ganhar mal ou empatar pior ainda?
  2. O pós-escrito te soou como excesso desnecessário ou exatamente o tipo de excesso que salva o poema?
  3. Você imagina esse sujeito mais irritante, mais triste ou mais reconhecível do que seria saudável admitir?
  4. Esse poema funciona para você mais como retrato de tipo humano ou como piada lógica muito bem acabada?

Para pensar além da conta

  1. O que o poema revela sobre competitividade quando nem o resultado resolve mais nada?
  2. Como um texto tão curto consegue desenhar personalidade com tão pouco atrito?
  3. A explicação final amplia o absurdo ou mostra que certas piadas só funcionam quando vão até o último centímetro?
  4. Há uma crítica de ego aqui ou o poema só confia plenamente na eficácia da caricatura?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

12 / 16

Não se vá

Douglas Domingues / poesia / p. 56-56

O poema encena um adeus dolorido e quase melodramático até revelar que o drama era, no fundo, perder mais um ônibus. É um golpe curto e eficaz contra nossa vocação de transformar contratempos bobos em tragédia interior.

Palavras suspeitas: cotidiano / melodrama / poesia / frustração / revelação

Para começar sem cerimônia

  1. Em que verso você percebeu que o poema estava preparando uma humilhação de transporte coletivo?
  2. O final te fez rir pela quebra, pela pena ou pelo reconhecimento imediato?
  3. Você leu esse eu lírico como romântico, dramático ou só dependente demais do ônibus?
  4. O texto funciona mais como mini-serenata ou como boletim de desastre cotidiano?

Para pensar além da conta

  1. Como a revelação final reorganiza o sentimento do começo sem apagar totalmente a dor?
  2. O poema está zombando do exagero humano ou admitindo que pequenos atrasos realmente desmontam um dia inteiro?
  3. Por que contratempos bobos rendem tão bem quando tratados com solenidade afetiva?
  4. Esse final diminui o drama ou prova que o drama já estava lá, só tinha escala municipal?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

13 / 16

Mosca na parede

Douglas Domingues / poesia / p. 57-59

Entre repetição, trocadilho e filosofia de quinta parecendo tese improvisada, uma mosca reivindica seu lugar na história do pensamento depois de ter servido de exemplo a René Descartes. O poema é ao mesmo tempo ladainha, birra e exercício de desgaste muito consciente de si.

Palavras suspeitas: filosofia / repetição / poesia / insignificância / humor

Para começar sem cerimônia

  1. Em que momento a insistência da mosca deixou de ser só zumbido e virou método?
  2. Qual ideia ou verso ficou mais rondando a sua cabeça depois?
  3. Você leu a mosca como pensadora ofendida, filósofa de improviso ou só criatura ressentida com ótima dicção?
  4. A presença de Descartes te pegou como elevação de nível ou como rebaixamento respeitoso da filosofia?

Para pensar além da conta

  1. O que o poema faz com a repetição: irrita de propósito, cria ritmo ou encena a própria obsessão?
  2. Como a referência cartesiana muda o tamanho da brincadeira sem tirar a cara de bobagem assumida?
  3. A mosca ganha alguma dignidade no texto ou continua sendo esmagada até quando pensa?
  4. Por que esse tipo de poema aguenta ficar insistindo sem simplesmente perder a graça?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

14 / 16

Gos-to

Douglas Domingues / poesia / p. 60-60

Num punzinho de afeto e mau gosto, o poema transforma a lógica do gostar em jogo de espelho entre desejo, ironia e autoestima claudicante. Curto e venenoso do jeito certo, ele consegue parecer delicado e ofensivo em partes quase iguais.

Palavras suspeitas: afeto / linguagem / poesia / autoimagem / humor

Para começar sem cerimônia

  1. Qual verso te parece mais carinhoso e qual te parece mais maldoso?
  2. Você leu esse poema como flerte, autossabotagem ou elogio com defeito de fabricação?
  3. O trocadilho do título funcionou de cara para você?

Para pensar além da conta

  1. Como o poema mistura afeto e autodepreciação sem precisar escolher um lado só?
  2. O que ele sugere sobre gosto, amor e vergonha de gostar?
  3. Por que um texto tão pequeno pode parecer ao mesmo tempo piada interna e confissão?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

15 / 16

Sofrimento adolescente

Douglas Domingues / poesia / p. 61-61

O poema finge anunciar uma crise existencial profunda até revelar que o peso insuportável em questão era carregar compras para a mãe. A graça está em levar o drama juvenil a sério o bastante para desmoralizá-lo sem crueldade.

Palavras suspeitas: adolescência / drama / poesia / cotidiano / humor

Para começar sem cerimônia

  1. Em que momento você percebeu que o poema estava vendendo tragédia para entregar sacola?
  2. Você se sentiu representado, acusado ou visto com precisão incômoda?
  3. Qual expressão melhor captura o exagero adolescente aqui?
  4. A revelação final te parece cruel, carinhosa ou exatamente calibrada entre as duas?

Para pensar além da conta

  1. O poema ri da adolescência ou reconhece que todo mundo já transformou bobagem em destino?
  2. Como o deslocamento entre linguagem grave e motivo banal produz o efeito cômico?
  3. Por que tarefas domésticas mínimas rendem tão bem como matéria de tragédia juvenil?
  4. O que o texto preserva de verdadeiro nesse drama mesmo depois de desmontá-lo?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

16 / 16

Sobre os antigos conselhos da vovó

Douglas Domingues / micro-ensaio / p. 62-62

Partindo de um provérbio sobre burros, cavaleiros, baratas e chinelos, o texto chega a uma conclusão involuntariamente filosófica sobre poder doméstico e o verdadeiro sentido dos conselhos da avó. É um mini-ensaio com cara de pensamento besta que acaba acertando onde não devia.

Palavras suspeitas: vovó / provérbio / poder / cotidiano / micro-ensaio

Para começar sem cerimônia

  1. Qual frase do texto te pareceu mais sábia do que tinha direito de ser?
  2. Você comprou o raciocínio do chinelo como instrumento de poder ou só admirou a engenharia da tese?
  3. Nesse mini-ensaio, quem sai melhor na foto: a avó, a barata ou a lógica?
  4. O desfecho te convenceu intelectualmente ou te venceu pelo cansaço bem argumentado?

Para pensar além da conta

  1. O que o texto sugere sobre poder: ele mora na pessoa, na ferramenta ou no medo do outro?
  2. Por que conselhos de avó sobrevivem tão bem quando passam pelo filtro do absurdo?
  3. Esse mini-ensaio funciona mais como piada, aforismo ou filosofia caseira em estado bruto?
  4. O que muda quando uma sabedoria doméstica é lida como se fosse teoria geral do mando?

Alguma coisa que pareceu importante na hora