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Guia capenga de leitura

A recordista

Perguntas para pensar ou conversar sobre humilhação intestinal, verme mandão, horror corporal, fome compulsiva e o prestígio duvidoso de sobreviver ao próprio trato digestivo.

O conto não quer elegância; quer acompanhar a degradação de Ana até onde o trato digestivo permitir. Este guia segue a mesma descida, passando por nojo, humor, parasitismo, corpo disciplinado e a linha suspeita entre pesadelo, doença e metáfora social malcriada. Pode ser usado em silêncio constrangido ou com testemunhas que saibam rir na hora errada.

Autor Augusto Luiz Melaré

edições fuinha · 2026 · 5 blocos · ISBN impresso 978-65-84058-09-5

Capa de A recordista em preto e branco

Um corpo, dois jeitos de perder a compostura

Por conta própria

Marque em que ponto a história muda de humilhação cotidiana para horror declarado. Vale registrar também quando o nojo virou riso, se sua dignidade permitir.

Com outras pessoas

Cada pessoa escolhe uma etapa da degradação e explica por que ela piora o conto. Ninguém é obrigado a oferecer histórico gastrointestinal como evidência.

Como usar

  • Não precisa dissecar cada página. Escolha duas ou três perguntas por bloco e deixe o nojo trabalhar a favor da leitura.
  • Se você começar a rir, não se corrija. O conto claramente sabe que horror intestinal também tem timing de comédia.
  • Se alguém puxar leitura sobre trabalho, corpo feminino, alimentação ou humilhação social, acompanhe. O verme não resolve tudo sozinho.

Se der branco: Se der branco, puxe a progressão do conto: vergonha, suspeita, compulsão, sonho, descoberta, recusa, ameaça. A história cresce justamente porque vai tornando o corpo cada vez menos administrável.

Antes de entrar no assunto

  1. O conto te ganhou mais rápido pelo nojo, pela graça ou pela velocidade com que a situação piora?
  2. Ana te parece mais vítima, narradora indireta de um desastre ou cúmplice parcial de uma lógica já desandada?
  3. O verme entra na história mais como monstro, sintoma ou caricatura grotesca de uma dependência?
  4. Em que momento você percebeu que a história não ia recuar nem um centímetro no projeto de te deixar desconfortável?

Percursos pelo trato narrativo

Escalada completa

Passe pelo conto inteiro dividindo a leitura em situação inicial, irrupção do monstro e escalada da ameaça. É curto; o desconforto rende mais.

Corpo em colapso

Concentre a atenção em vergonha, fome, controle e parasitismo. O grotesco tem engrenagem, embora seja melhor não perguntar como foi lubrificada.

Repulsante completo

Use junto com os outros títulos da Coleção Repulsante. Funciona bem se a ideia for comparar maneiras diferentes de fazer humor ruim do melhor jeito possível.

Depois de tudo

  1. No fim, o que te ficou mais forte: o horror corporal, a humilhação social ou a comicidade escatológica?
  2. O conto funciona melhor como pesadelo literal ou como exagero monstruoso de rotinas de consumo, trabalho e controle do corpo?
  3. Que tipo de medo aparece aqui: medo de parasita, de doença, de exposição ou de perder autonomia sobre o próprio corpo?
  4. Se você tivesse que apresentar esse conto a alguém em uma frase, tentaria convencer ou afastar a pessoa?

01 / 05

Vergonha no banco

Augusto Luiz Melaré / bloco / p. 5-7

A abertura instala o eixo do conto com eficiência cruel: Ana sofre com uma diarreia contínua e fedorenta no trabalho, enfrenta a vigilância dos colegas e vai sendo reduzida a corpo em pane diante de um ambiente que cobra compostura e produtividade.

Palavras suspeitas: trabalho / vergonha / corpo / humilhação

Para começar sem cerimônia

  1. O que te fisgou primeiro aqui: o constrangimento social ou a descrição quase épica da desgraça intestinal?
  2. Ângela te parece só cruel ou também funciona como amplificação do olhar social sobre o corpo dos outros?
  3. O banco como cenário piora a situação por contraste com a ideia de elegância e controle?

Para pensar além da conta

  1. Como o conto usa espaço de trabalho para transformar um problema físico em humilhação pública?
  2. O que há de especificamente social no nojo produzido aqui, para além da condição médica ou monstruosa?
  3. Ana já aparece dominada por algo externo ou o conto começa num registro de desgaste ainda administrável?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

02 / 05

Porco, iogurte e compulsão

Augusto Luiz Melaré / bloco / p. 7-10

O conto aprofunda a estranheza ao vincular o mal-estar de Ana a uma fome muito específica por porco e iogurte. A compulsão alimentar aparece como pista monstruosa e também como rebaixamento cotidiano, aproximando o horror de hábitos banais e da exaustão doméstica.

Palavras suspeitas: compulsão / consumo / fome / estranhamento

Para começar sem cerimônia

  1. Quando a especificidade por porco e iogurte deixa de ser detalhe esquisito e vira sinal de desastre?
  2. A comida nesse conto parece prazer, vício ou chantagem fisiológica?
  3. O gato e a rotina de casa ajudam a deixar tudo mais concreto ou só tornam a cena mais triste?

Para pensar além da conta

  1. Por que o conto escolhe alimentos tão específicos para marcar a influência do parasita?
  2. Como a lógica da fome aqui mistura desejo pessoal e imposição externa?
  3. Há alguma crítica de consumo e rotina embutida nessa insistência alimentar ou o grotesco basta por si?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

03 / 05

O verme fala

Augusto Luiz Melaré / bloco / p. 11-14

No sonho que não é só sonho, o verme enfim se apresenta, sai do corpo de Ana, pede iogurte e porco e estabelece com clareza sua relação de mando. O horror corporal vira diálogo grotesco, e a repulsa ganha forma verbal, chantagista e surpreendentemente autoritária.

Palavras suspeitas: verme / horror corporal / sonho / parasitismo

Para começar sem cerimônia

  1. O que te afetou mais nessa virada: o aparecimento físico do verme ou o fato de ele falar como chefe abusivo do intestino?
  2. Você leu essa sequência mais como pesadelo, revelação ou colapso total da fronteira entre corpo e imaginação?
  3. O conto fica mais engraçado ou mais nojento quando o monstro ganha voz?

Para pensar além da conta

  1. Como a fala do verme muda o regime do conto, saindo do sintoma e entrando no pacto de dominação?
  2. O que o monstro verbaliza que o corpo de Ana já vinha dizendo desde o começo?
  3. Esse bloco trabalha mais com susto visual ou com a perversidade da dependência nomeada?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

04 / 05

Recusa, fraqueza e alerta

Augusto Luiz Melaré / bloco / p. 15-20

Ana tenta resistir, corta a comida do verme e vai se decompondo junto. O corpo enfraquece, o trabalho percebe, a vergonha muda de tom e a ameaça se torna mais sistemática, até o monstro anunciar projeto de reprodução e escravização intestinal.

Palavras suspeitas: recusa / fraqueza / ameaça / reprodução

Para começar sem cerimônia

  1. Você acreditou por algum momento que Ana conseguiria vencer o verme pela recusa?
  2. Ângela reaparece aqui como antagonista menor ou como raro gesto de preocupação no meio do vexame?
  3. Qual é a parte mais perturbadora da ameaça do verme: a fome, os ovos ou a transformação de Ana em hospedeira permanente?

Para pensar além da conta

  1. Como o conto transforma resistência alimentar em outra forma de autodestruição?
  2. O projeto reprodutivo do verme amplia o horror pessoal para uma lógica de infestação social mais ampla?
  3. Há algo de especialmente cruel em fazer a protagonista escolher entre alimentar o monstro e definhar?

Alguma coisa que pareceu importante na hora

05 / 05

Hospital e falsa racionalidade

Augusto Luiz Melaré / bloco / p. 20-26

Na reta final, Ana recorre a vermífugo de gato, depois ao hospital, tentando reintroduzir alguma racionalidade médica num corpo já entregue ao grotesco. O contraste entre clínica banal e horror parasitário mantém o conto num equilíbrio ótimo entre absurdo, pena e nojo.

Palavras suspeitas: hospital / medicina / desespero / grotesco

Para começar sem cerimônia

  1. A ida ao hospital te soou como chance real de saída ou só como prolongamento cômico da humilhação?
  2. O detalhe do vermífugo de gato te parece desespero plausível ou ápice deliberado da degradação?
  3. O conto ganha mais força quando encosta de novo no cotidiano banal da consulta médica?

Para pensar além da conta

  1. O que a cena clínica revela sobre os limites da linguagem racional diante de um corpo já capturado pelo grotesco?
  2. Por que o conto não precisa de grande clímax espetacular para deixar a sensação de desastre em curso?
  3. A recordista termina mais como sátira corporal, pesadelo em aberto ou pequena tragédia nojenta?

Alguma coisa que pareceu importante na hora